O que matamos primeiro: o trabalho remoto ou a cultura organizacional?

A história é simples e conta-se rápido.

O meu filho mais velho esteve desde início de Julho em remoto em Portugal para uma empresa multinacional para que trabalha em Espanha. Nesse período fez as suas férias em Portugal. Voltou já a Espanha.

Dizia-me ele: "Pai, esta ideia do remoto é interessante e dá-me uma flexibilidade enorme". Claro que dá. Claro que é interessante. Claro que pode ser um argumento importantíssimo na retenção e na contratação. E não só.

Porém, acrescentava depois do período de férias: "Pai, está-me a ser super difícil entrar nos carris porque recomeçar sozinho, por exemplo, não é uma boa coisa". E dizia-me mais: "Pai, há uma motivação que se traduz por uma espécie de pressão social no trabalho que é estarmos juntos num escritório, mesmo que as pessoas que lá estejam nada tenham a ver com o que estou a fazer."

Dizia-lhe eu: "Acho que a questão do isolamento, porque isso é também isolamento, é uma questão complexa e longe de estar resolvida com o trabalho remoto." "Desde a faculdade que me lembro que o estudo em biblioteca - para sentir o acompanhamento de outros - ou o fazer exercícios em cafés de rua - era super importante para não ficar fechado em casa sem sentir um contexto social e algum acompanhamento."

Há três aspetos que considero importantes e decorrentes desta conversa.

Uma, trabalhar em conjunto e acompanharmo-nos uns aos outros, mesmo que não sejamos da mesma equipa, tem um sentido qualquer de propósito coletivo. De sabermos que estamos todos a trabalhar para uma organização que, em casa, não tem elementos tangíveis - nem pessoas - para além de um ecrã de computador. A questão, ou uma boa questão, é saber quanto tempo aguentamos sem nos vermos e se não precisamos mais do que x dias por semana para mantermos uma estabilidade produtiva, um rendimento, uma performance que talvez precise de outros. Digo talvez porque não tenho quaisquer certezas nestas matérias complexas.

Outra, trabalhar em lugares com pessoas pode ser mais simples que em lugares sem pessoas. Cada um é como cada qual e terá o seu rendimento em que circunstâncias for. Mas o sentido social estará sempre presente.

Finalmente, uma terceira questão importante: a rotina. Uma rotina, um conjunto de, chamemos-lhe "rituais" faz parte da construção da cultura de uma empresa.

Pergunta, não ingénua, que fiz a este meu filho: "Ok, se tivesses que trabalhar só autónomo, só remoto ou trabalhar sempre na empresa qual escolherias?". Na resposta não houve qualquer hesitação: "Na empresa, mil vezes. Há pessoas, há movimento, há uma propensão para o objetivo mesmo que estejamos a fazer coisas diferentes, podemos parar para um café conjunto, almoçar com alguém e encontrar um conforto psicológico com e nos outros que estão ao nosso lado".

E ainda outra pergunta que fiz para a qual sabia a resposta. Mas não deixei de fazer: "Supondo um híbrido com dias em casa e dias na empresa, que parece ser o modelo mais comum, quantos dias em casa e quantos dias na empresa?".

A resposta não veio logo. Foi hesitante. E veio um bocadinho desestruturada: "Talvez não fosse mau ser sempre na empresa. Porque há a inovação e novas formas de fazer e o chat é muito bom e mesmo as calls mas não são a mesma coisa que debater ao vivo e com colegas formas de fazer. E depois não há rotina, sem o sentido pejorativo da rotina."

Não retiro nenhuma conclusão disto. Não sei sequer o que será melhor, se o trabalho remoto, híbrido ou presencial. Tal como as aulas, onde tendo a preferir um modelo aos demais que é, pessoalmente, o presencial. Preferência esta que me parece mais vivida em todos os aspetos.

É no mínimo curioso que mesmo para o que pode ser um nómada digital onde o remoto, se o entender, poderá estruturar a sua vida haja uma necessidade enorme de peer pressure para o objetivo, para a motivação, e, ainda, uma necessidade enorme de animal gregário. Troca-se isso por uma vida sozinho? É uma questão que não ajuda a resolver problemas. Nem tão pouco pretende. Mas é um facto que nos deve ajudar a pensar.

E aqui entra uma outra dimensão que quase nunca está a ser tomada em consideração nestes debates: cada pessoa é diferente da outra. E tem formas de ver e sentir o remoto de formas diversas. Dito isto, a pergunta que se deve fazer é a seguinte: parte-se a empresa consoante a vontade das pessoas? Não tenho resposta. Mas lanço outra questão não menos importante: e onde fica, ou já não é necessária, a cultura de organização com esta putativa partição? Ou com o remoto? Ou já não é importante a cultura da organização?

Presidente do Iscte Executive Education

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