O primeiro vice

Não há tanto tempo quanto isso mas numa era bem diferente, o Capitólio dos Estados Unidos da América era capaz de momentos de clamor, graça e reciprocidade. Foi assim em 2007, quando o presidente republicano George Bush (filho) introduziu o seu discurso do Estado da União "com a honra e o privilégio de ser o primeiro a poder começar por dizer: Madam speaker", pois a democrata Nancy Pelosi era a primeira mulher a assumir o cargo na Câmara dos Representantes. E foi também assim em 1981, com o vice-presidente Walter Mondale, um dia após celebrar o seu 53.º aniversário, a ler os resultados da primeira vitória de Ronald Reagan, em que havia sido derrotado como recandidato a vice-presidente de Jimmy Carter. Com equivalente sentido de humor e solenidade, Mondale leu os números do colégio eleitoral que davam a maioria de Reagan contra Carter e, logo a seguir, os que davam a maioria de George Bush (pai) contra si próprio. "Walter F. Mondale recebeu 49 votos", declarou, com um sorriso bem-disposto mas resignado. "Consegui, hein? Uma grande cabazada", ironizou para o lado, sendo apanhado pelo microfone. A Câmara, munida de respeito, levantou-se toda para o aplaudir e rir com ele. E Mondale, rindo de volta, declarou a sessão por encerrada.

Era outro tempo, com outra gente
Walter "Fritz" Mondale, político, diplomata e advogado nascido no Minnesota em 1928, faleceu nesta segunda-feira, com 93 anos. O cargo de vice-presidente dos Estados Unidos e o modo como é percecionado na cultura política americana e na arena internacional beberam, em muito, do contributo do seu mandato ao lado de Jimmy Carter, de 1977 a 1981. Mondale não só foi o primeiro vice a ter um gabinete seu na Casa Branca, como estava encarregado de desenhar a pirâmide de prioridades do presidente. Carter, traumatizado pela presidência imperial de Nixon e pelo escândalo de Watergate, ensaiou uma administração de poderes descentralizados, sem um chefe de gabinete todo-poderoso, o que reforçou a importância da vice-presidência, nas mãos de Mondale.

O democrata, senador pelo seu estado natal durante 12 anos, teve uma carreira política ligada às causas progressistas e sindicais, mas igualmente próximo do establishment do seu partido. Ideologicamente, a American Conservative Union dava-lhe uma nota de 9% de conservadorismo, o que para Mondale talvez contasse como elogio. Em 1984, quando torna a enfrentar (e a ser derrotado) o reaganismo, escolhe para sua candidata a vice-presidente uma mulher, a então congressista Geraldine Ferraro, sendo a primeira vez que uma eleição americana não foi somente disputada entre homens. Ferraro faria história não apenas por isso, mas por rejeitar o tom "condescendente" de Bush (pai) num debate televisivo sobre política externa.

Nas primárias do Partido Democrata, Mondale enfrenta um ativista afro-americano (o reverendo Jesse Jackson) e o senador John Glenn (o primeiro astronauta a dar a volta à Terra), vencendo com uma frase roubada a uma campanha da hamburgueria Wendy's para evidenciar a falta de conteúdo da sua oposição: "Onde está a carne?"

Ganhando a nomeação, a campanha começaria bem, com um discurso realista sobre o estado do país ("Para Reagan, é tudo quintais e cachorros. Ninguém está sozinho. Ninguém tem fome. Ninguém está desempregado. Ninguém envelhece. Somos todos felizes", provocaria) e sobre a necessidade de aumentar impostos ("Qualquer um de nós terá de o fazer. A diferença é que eu não o escondo"), mas a força de Reagan como incumbente e a máquina oleada do seu staff fizeram-se valer. No debate final da corrida, Reagan, septuagenário, inverteria a desvantagem do seu envelhecimento com astúcia: "Não vou fazer da idade um assunto desta campanha. Não exploraria a juventude e a inexperiência do meu adversário para ganho político." Mondale tinha 55 anos.

Dias depois, Ronald Reagan ganharia a eleição com 525 votos do colégio eleitoral contra 13 de Walter Mondale, que regressaria a advocacia e, mais tarde, a funções públicas, como embaixador de Bill Clinton no Japão.

Foi o mais ilustre derrotado da política norte-americana na segunda metade do século XX.

Colunista

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