O petróleo como arma

A decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) de diminuir a produção de petróleo, a fim de abrir possibilidades de aumento do preço, foi tomada sob a liderança da Arábia Saudita, que é o membro dominante desse grupo. A diminuição da produção de petróleo geralmente é feita para preservar o nível do preço, ou para o aumentar e, desta vez, é feito diretamente contra a posição dos Estados Unidos, principal parceiro do regime da Arábia Saudita na preservação da sua segurança na instável região do Médio Oriente.

É interessante que a diminuição da produção de petróleo esteja obviamente alinhada com a política atual da Federação Russa, que precisa decididamente de aumentar o seu lucro com a exportação de petróleo para mitigar os efeitos negativos das sanções económicas impostas pelos países ocidentais.

Usar o petróleo como ferramenta para alcançar objetivos não apenas económicos, mas também políticos não é nada de novo no mundo dos negócios do petróleo. Aconteceu várias vezes antes. A novidade é a Arábia Saudita, como principal produtor de petróleo, e os Estados Unidos como seu principal aliado no fornecimento de armamento e outros equipamentos militares, terem posições totalmente diferentes sobre a questão. Além disso, o que parece ainda mais estranho é os sauditas estarem agora, nas questões relacionadas com o petróleo, mais perto de Moscovo do que de Washington. Isso está a acontecer ao mesmo tempo que Riade espera entregas de equipamentos militares no valor de vários milhões de dólares e um tratamento especial por parte dos EUA na venda das armas mais recentes e desenvolvidas.

Vai ser muito difícil para os analistas estratégicos em Washington formularem a explicação lógica da última atitude dos sauditas, que obviamente lhes trará mais rendimento no curto prazo, mas prejudicará as relações estratégicas de longo prazo com os EUA . Este é mais um exemplo da política do Médio Oriente, que nunca é estável, e também não é o que parece, tendo em mente que várias coisas estão a acontecer ao mesmo tempo - aquilo que se vê e o que não se vê. Parece complicado e é exatamente assim.

A liderança russa verá com certeza a decisão da OPEP como uma grande conquista da sua política para o Médio Oriente ao conseguir introduzir uma brecha entre os aliados dos EUA naquela região. É algo que só pode reforçar a sua óbvia intenção de encontrar um papel mais importante para a Rússia nos acontecimentos do Médio Oriente. Isso apenas pode ser conseguido às custas dos EUA e também de Israel e parece que, por enquanto, está a funcionar.

A resposta de Washington está pendente, tendo em vista que o aumento do preço do petróleo prejudicaria a posição do Partido Democrata pouco antes das eleições para o Congresso. Então, não é apenas um problema económico, mas também um golpe grande para a atual Administração dos EUA, que tentava ultrapassar as acusações do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman pelo assassinato do colunista do Washington Post Jamal Khashoggi, em 2018, que também era um jornalista opositor na Arábia Saudita. Agora, tudo isso pode voltar à ribalta e não vai prejudicar apenas a imagem de Riade nos EUA, mas também a política do presidente americano Joe Biden.

O que for acontecer no futuro próximo nas relações EUA-Arábia Saudita provavelmente explicará o que se está a passar nos bastidores, pelo menos até certo ponto, tendo em mente todos os jogos secretos disputados ao mesmo tempo no Médio Oriente. Este momento deste jogo é mais perigoso por causa da guerra russo-ucraniana e do envolvimento político e militar dos EUA nela. Qualquer decisão pró-Rússia de um aliado americano como é a Arábia Saudita, só pode originar uma resposta forte, que provavelmente estará a ser decidida em Washington. O pensamento de Riade neste caso não é claro e não pode ser apenas económico.

A última decisão de Riade de enviar para a Ucrânia uma ajuda humanitária de 400 milhões de dólares parece uma tentativa de gestão da crise, a fim de enviar diferentes sinais a Washington.

Será suficiente? Provavelmente não.

Investigador do ISCTE-IUL e antigo embaixador da Sérvia em Portugal

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