O padre António e o sentido da vida

Um dia, numa ecografia de rotina, a médica que acompanhava a gravidez da Madalena disse-lhe que a criança teria uma doença muito grave e uma esperança de vida que não ultrapassaria os 13 anos, e que uma grande parte desta vida seria passada em sofrimento num hospital.

Como tínhamos a sorte de ter já duas crianças saudáveis, a sua proposta era de que a Madalena abortasse.

A notícia caiu com um impacto brutal, pois ainda que todos discutamos muito intensamente todos estes temas, nunca esperamos que nos toquem a nós e é nestes momentos que somos assaltados pelas dúvidas e em que pomos em causa as nossas convicções.

Como se costuma dizer, só quem as passa é que sabe...

Falámos com muitas pessoas que nos são próximas para podermos tomar a nossa decisão e obtivemos as mais diversas reações.

Houve sempre quem nos dissesse que era pecado, houve quem dissesse que era proibido, houve quem dissesse que compreendia e houve quem dissesse que seria o mais razoável.

Mas não houve ninguém que verdadeiramente nos desse o caminho que necessitávamos e que procurávamos.

Fomos então falar com o padre António Vaz Pinto.

O Padre António Vaz Pinto era um entusiasta, um lutador e um convicto de que Cristo está sempre presente em nós.

E ele, que nem sequer sabia do tema de que lhe queríamos falar, trazia na mão um recorte de um jornal desse dia, em que um homem vinha agradecer aos seus pais não terem desistido da sua vida, pois tinha nascido com uma doença que não tinha cura, mas que tinha sido descoberta essa cura durante a sua vida e ele podia agora desfrutar de ser feliz.

Tivemos uma longa conversa em que aprofundámos muito todas as questões que nos preocupavam e sempre numa atitude de acolhimento que nos foi tranquilizando e que nos foi preparando para aquilo que era importante.

No fim disse-nos: "Vocês conhecem tudo o que pensa a Igreja sobre esse tema e sabem quais são todas as suas implicações. Pois eu agora digo-vos, pensem em tudo isso com a certeza de que a decisão certa é aquela que tomarem."

Ficámos perplexos e fomos embora.

Mas ao mesmo tempo fomos cobertos por uma sensação de paz que não tínhamos sentido desde que começara toda aquela aflição.

A minha terceira filha casou-se no ano passado e não tem qualquer doença.

E eu converti-me.

Porque o Padre António, com aquela frase ensinou-me que sou livre de decidir e que a decisão certa é aquela que eu tomar.

Porque é esse o enorme amor que Deus tem por mim.

Deu-me a liberdade de eu poder decidir de verdade, de poder escolher entre duas opções e, ainda que possa errar, Deus respeitará a minha decisão.

Foi essa conversão que me trouxe a paz que foi tão necessária para apoiar a Madalena na sua decisão, mas foi também essa conversão que nos permitiu não mais duvidar que optamos sempre pela vida e não pela morte, por dar a oportunidade e não matar.

Foi este o homem tão bom que agora morreu.

Morreu o Padre António Vaz Pinto, uma pessoa que viveu sempre a lutar por um Mundo em que Cristo estivesse presente.

Ajudou muitos portugueses e cuidou dos imigrantes.

Impactou várias gerações de estudantes e acompanhou muitas vidas.

Era um entusiasta, um lutador e um convicto de que Cristo está sempre presente em nós.

Foi uma enorme força que levou muitos, como eu, à conversão.

Muito obrigado, querido Padre António.

bruno.bobone.dn@gmail.com

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