O mundo é complicado e precisa de adultos na sala

As notícias dos últimos dias estão cheias de referências ao telefonema que a ainda chanceler alemã fez ao presidente da Bielorrússia e que terá, no momento em que escrevo, contribuído para diminuir ligeiramente a tensão política e de segurança com a Polónia e a União Europeia. As mesmas notícias dão também conta de algum mal-estar entre os aliados da Alemanha, que consideram a iniciativa da senhora Merkel uma quebra da solidariedade europeia.

Assumindo que tudo o que foi dito antes corresponde a factos, importa perguntar quais serão os valores que nos movem e que devemos tentar salvaguardar. Sem qualquer hesitação, diria que o primeiro objetivo será encontrar uma solução para o drama dos refugiados perdidos entre as Forças Armadas que os empurram em direção à Polónia e as Forças Armadas que os impedem de entrar no território da União Europeia. E com a mesma certeza diria que o segundo valor a preservar será a paz e a estabilidade na fronteira leste da UE. Se forem estas as nossas prioridades, a pergunta que se seguem será igualmente óbvia: quem poderá ser mais eficaz? A diplomacia preventiva da Alemanha ou a reação mais afirmativa defendida por outros países?

Tanto a ONU como o Banco Mundial argumentam que as crises humanitárias e de segurança, normalmente provocadas por crescimento económico insuficiente, desenvolvimento social injusto, alterações climáticas que colocam em causa o acesso a bens de primeira necessidade ou perda de legitimidade política dos governos, começam muito antes das imagens sempre chocantes que aparecem nos ecrãs das nossas televisões ou dos nossos telemóveis. E na longínqua década de 50 do século passado, o secretário-geral das Nações Unidas já defendia a virtude de prevenir as crises para não ter de as remediar.

Se o conceito da diplomacia preventiva já se passeia pelos corredores da política internacional há uns 70 anos, a verdade é que até agora nunca foi capaz de cumprir o papel que lhe pedimos. As razões são muitas e não cabem no espaço destas linhas, mas há uma boa notícia: em 2015, nos chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os Estados do mundo concordaram numa agenda comum e partilhada para dar resposta às causas que levam às crises que poderão contribuir para resolver as dificuldades antes de termos de chamar as Forças Armadas.

Para um país como Portugal, a diplomacia preventiva é mais interessante do que as outras soluções que normalmente existem na caixa das ferramentas da política internacional. Por um lado, a defesa dos nossos interesses estratégicos faz-se no quadro das organizações multilaterais, do direito internacional e das negociações. Em segundo lugar, somos negociadores naturais que, não tendo a capacidade de impor soluções a ninguém, procuramos contribuir para as soluções partilhadas que não deixam ninguém verdadeiramente contente nem ninguém profundamente infeliz. E, finalmente, a diplomacia preventiva poderá reforçar o nosso papel, contributo e posicionamento no quadro das nossas relações internacionais.

O mundo é um lugar complicado onde toda a gente tem armas. Precisamos de adultos na sala que sejam capazes de perceber as causas das crises e tenham a maturidade para tentar resolvê-las pacificamente. Vamos ter saudades da senhora Merkel.

Investigador associado do CIEP / Universidade Católica Portuguesa

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