O interacionismo da imagem digital

Não é ficção, é realidade: o digital é o novo normal. Começou na década de 1970 com a invenção do microprocessador, dos computadores ligados em rede e da fibra ótica e, hoje, a pandemia ditou a sua singularidade conferindo-lhe até uma certa supremacia.

Neste particular momento conjuntural, estamos perante a automatização e desenvolvimento de canais digitais que se estabeleceram como pilares significativos no setor empresarial.

Neste contexto marcado pelo avanço tecnológico, não é surpresa que a ACEPI, através de um "Estudo da Economia Digital" preveja que em 2021 o valor de comércio eletrónico cresça significativamente cerca de 110,6 Milhões de Euros, comparando com anos anteriores.

Do conhecimento geral, é ainda a transformação digital e a transição para uma sociedade digital anunciada pelo Governo em março de 2020 e que está inserida no Plano de Cooperação Digital da ONU. É interessante ler que o plano "Portugal Digital" "tem como propósito acelerar Portugal, sem deixar ninguém para trás, e projetar o país no mundo."

Um dos pontos que aqui mais chama a atenção é o destaque dado a "sem deixar ninguém para trás". De facto, o digital é um modo de vida inevitável e incontornável. Isto ficou claro com a pandemia.

Levantam-se várias questões sobre a complexidade do papel aglutinador das novas tecnologias face à intervenção humana, em que a primeira tem vindo a imprimir no quotidiano projeções de vida transumanas através, por exemplo, do recurso à inteligência artificial. Uma das questões, e esta mais ligada à estratégia de cada empresa, prende-se com a singularidade de uma marca e do seu posicionamento no mercado.

Em todo o seu conjunto de variáveis, a imagem é o lugar onde a mensagem de uma empresa toma forma.

É através da imagem que todas as narrativas ecoam e se relacionam com o exterior. Ou seja, intervém decisivamente - enquanto enquadramento comum de todas as práticas - na morfologia e notoriedade de uma empresa. Em linhas gerais, a imagem é indissociável da HUB digital de uma empresa.

A significação da imagem é preponderante enquanto elemento compositor nas relações com o público. Veja-se o exemplo da TGI (Target Group Index) que explica como os fenómenos visuais são compreendidos e como o cérebro processa a informação tendo como origem os elementos estruturais da imagem e as suas relações. Jacques Aumont, teórico de cinema, escritor e professor francês também explorou no seu livro "L"image" o caráter simbólico da imagem e a sua relação com a comunicação e o comportamento social - numa espécie de correspondência permanente.

Poder-se-á dizer que a imagem dita a singularidade de uma empresa na esfera digital. E, na perspetiva de Business Development, poderá assumir um papel impulsionador no mercado.

Do mesmo modo, Justo Villafañe, autor de diversos livros onde faz o cruzamento da teoria da imagem com o exercício da gestão empresarial, e atualmente professor de "Reputação Corporativa" na Universidade Complutense de Madrid, explica no seu livro "Imagem positiva: gestão estratégica da imagem das empresas" a importância da imagem enquanto narrativa visual nos efeitos da interlocução empresarial com o público.

O digital convoca de forma evidente a imagem enquanto principal referência representativa. Deste modo, a relação de uma empresa com o público é mediada pelo universo digital que por sua vez usa a imagem para atrair e aproximar. A objetividade da mensagem é inerente à imagem e esta está imersa no digital e no seu dinamismo.

Agora, mais do que nunca, o modelo comunicacional do sociólogo Harold Lasswell deve estar presente em qualquer que seja a estratégia empresarial: quem diz o quê a quem, por que canal e com que efeito. A partir do modelo de Lasswell, Raymond Blalock Nixon, vem questionar quais são as intenções, objetivos e propósitos do emissor e as condições de receção da sua mensagem. Nixon defende que o recetor acolhe e reage à imagem que resulta da expressão do emissor criando, assim, interacionismo.

Para além de todas estas questões, sabemos que a imagem nos seus mais variados domínios - representada por formas, esquemas, estruturas, etc. -, sempre foi fundamental para o desenvolvimento do conhecimento, do pensamento e da memória.

Que tipo de conhecimento, pensamento e memória queremos que o nosso cliente, ou potencial cliente, parceiro e público em geral, tenham sobre a nossa empresa?

Pode haver múltiplas respostas, mas, seguramente, umas das mais óbvias pertence ao domínio da imagem que se apresenta no digital - o novo normal.

Vera Teixeira da Costa, C​​​​​ommunication Manager na Raposo Bernardo & Associados - Sociedade de Advogados

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