O imperdoável

Uma análise pormenorizada e estendida no tempo torna a biografia de Mikhail Gorbachev nascido em 1931, falecido esta terça-feira imperdoável para qualquer dos observadores que a contemple. A sua vida, ao contrário da maioria dos homens de Estado, não foi feita de ambiguidades pontuais ou contradições inevitáveis. Não era um cínico, nem um idealista; não era um convertido, nem um conversor; não era um dogmático, nem tão-pouco um hipócrita. O seu legado é a antítese de uma nuance. Teve consequências gigantescas, do ponto de vista global, e efeitos nefastos, na perspetiva dos povos sob a sua alçada. Conviveu com decisões trágicas e com feitos extraordinários. Não esteve sozinho nos seus crimes, o que não o iliba; nem teria triunfado sem o contributo de outros, o que não o diminui.

A sua ação, na História, é definida pela proporção e não pelo princípio. Sim, foi determinante para a desnuclearização da Guerra Fria, negociada com Reagan, mas encobriu o desastre nuclear de Chernobyl. Sim, permitiu a queda do Muro em Berlim, mas não a ordenou ou incentivou. Sim, aceitou a reunificação alemã, mas fê-lo a troco de uma indemnização financeira significativa. Não derramou sangue na dissolução da União Soviética, mas centenas morreram nos anos que antecederam essa dissolução. Os seus detratores acusam-no de extinguir um império e os seus defensores esquecem o que fez antes de abrir mão dele. Em 1986, no seu primeiro ano como secretário-geral, reprimiu protestos pacíficos no Cazaquistão com um número de mortos superior a 150. Quatro anos depois, no janeiro negro do Azerbaijão, os seus tanques vitimaram o mesmo número, em Baku. Em 1991, na Lituânia e na Letónia, dezenas de vidas foram igualmente sacrificadas nas ruas por ordem de Moscovo. Como ele dizia, devolveu "a Alemanha aos alemães, a Polónia aos polacos e a Chéquia aos Checos", mas tal é a sua marca; não o seu resumo.
A sua personalidade humana, o amor pela mulher falecida, a empática farda de viúvo, a ligação à música e à poesia, são capas de um livro mais complexo.

Os seus apologistas elevam o facto de não ter derramado sangue quando não é assim; derramou, tendo escolhido não derramar mais. Transformou-se numa referência pop da cultura ocidental (em anúncios da Pizza Hut e da Louis Vuitton) e, simultaneamente, num combustível de rancor para a Rússia de Vladimir Putin. Trouxe trinta anos de paz e de acalmia nuclear, mas não impediu os próximos trinta de se assemelharem mais ao tempo que quis romper do que ao tempo que quis fundar. O socialismo de rosto humano de Gorbachev desaguou no autoritarismo de face corrupta de Putin. Esteve a seu lado na anexação da Crimeia e no responsabilizar do alargamento da NATO como justificação para a guerra, ainda que crítico de políticas domésticas repressivas. Apesar de origens familiares ucranianas, considerava a disputa do Donbass um assunto interno da Rússia ‒ coisa que visivelmente não era, não é e não será.

Numa retrospetiva do século XX, Mikhail Gorbachev não é um paradoxo.

É o paradoxo.

O facto de o seu legado estar assente nas consequências das suas ações e não na perseverança das suas ideias veja-se o que é a Rússia três décadas depois força a dúvida: a supremacia económica e militar do Ocidente tornava a queda da superpotência rival uma inevitabilidade? Se sim, uma inevitabilidade menos sangrenta graças a ele?

Gorbachev mudou o mundo ou o mundo teria mudado sem ele?

Essa, claro, é uma questão que invalida ‒ ou desvalorizaria qualquer legado.
Mas talvez com nenhuma outra figura seja tão necessário fazê-la.


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