O futuro dos talibãs

O último avião americano deixou o aeroporto de Cabul e a "nova era" do Afeganistão está agora a começar.

A situação está a tornar-se extremamente complicada, independentemente da rápida vitória do movimento talibã na prolongada guerra civil. É óbvio que eles vão acabar por chegar ao poder em todo o país, formar o novo governo e tentar organizar as coisas de modo a parecerem-se com qualquer outro país da região. Infelizmente, as coisas não são tão simples e o seu sucesso dependerá de muitas coisas.

São três os problemas que terão de enfrentar de imediato: o primeiro é a relação com o mundo exterior, tendo em vista o péssimo estado da economia afegã e a sua dependência da ajuda humanitária. Em segundo lugar, eles têm de definir a sua relação com os grupos islâmicos ainda mais radicais no país e no vizinho Paquistão, a fim de os excluir da lista de inimigos, especialmente no primeiro período do seu governo. E terceiro, eles têm de encontrar uma maneira de estabelecer o controlo total sobre todas as suas próprias unidades em todo o país, a fim de ter uma política e um governo centralizados.

Com o mundo exterior e principalmente com os EUA e a Europa, os talibãs têm de se apresentar como uma força capaz de organizar a vida normal do país, de erradicar a corrupção e não suspender direitos dos civis. Só então eles serão capazes de negociar o levantamento das sanções e abrir as portas para a ajuda financeira, desesperadamente necessária no Afeganistão.

Com os diferentes grupos terroristas ainda a atuar dentro do Afeganistão, os talibãs têm de encontrar uma forma de controlar a atividade daqueles, para não os deixarem influenciar a parte religiosamente radical da população afegã e reconquistarem popularidade no país.

Além disso, eles devem estabelecer um controlo rígido sobre os seus próprios membros, para não os deixar fazer coisas diferentes do que a autoridade central faria, especialmente contra as mulheres e alguns ex-funcionários dos Estados Unidos e outras forças internacionais.

A questão principal é qual desses três objetivos conseguirão atingir e quando. É, provavelmente, muito difícil de prever, mas com base na experiência anterior, pode dizer-se com segurança que as suas hipóteses de alcançar qualquer um desses objetivos são muito pequenas. Assim, podem falhar em tudo isso, deixando o país num estado de caos e à espera de uma nova onda de violência descontrolada.

O governo dos Estados Unidos não ficará parado após o ataque terrorista aos seus soldados em Cabul. Eles irão atrás dos membros do braço do Estado Islâmico no Afeganistão e talvez até no Paquistão. Eles não precisam de usar forças terrestres, mas os drones e outras armas não tripuladas já começaram a sua atividade. Também poderá haver alguns erros e civis poderão ser atingidos, o que vai radicalizar várias organizações e pessoas. Aí, os talibãs perderão qualquer controlo, não apenas sobre os islamistas radicais, mas também sobre algumas partes das suas próprias unidades. As sanções permanecerão em vigor, empurrando a economia afegã ainda mais para o fundo do abismo da pobreza e até da fome.

A estimativa é que haverá falta de estabilidade e haverá espaço aberto para atividades de antigos e novos grupos radicais, explosões e execuções, sem muito controlo. Um dos elementos mais desconhecidos da situação futura é a questão da política do Paquistão. Será que eles irão esperar que a instabilidade ultrapasse a sua fronteira ou não?

Este processo está apenas a começar agora e levará algum tempo até que o resto do mundo comece a pensar sobre o que fazer.

Investigador do ISCTE-IUL e antigo embaixador da Sérvia em Portugal

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