O estado da noção

Amanhã cumpre-se mais um ritual da liturgia democrática e parlamentar, o chamado Estado da Nação. Nos Estados Unidos, o Estado da União é um dos momentos políticos mais aguardados do ano, com um discurso de prestação de contas diante dos eleitos e uma oportunidade para antecipar o que virá a seguir.

Em São Bento, amanhã, vamos ouvir mais uma sessão previsível, maçadora e repetitiva. O governo dirá que a pandemia condicionou as políticas e apresentará números da vacinação e dos apoios. E, claro, vai agitar os milhões de milhões da bazuca para prometer amanhãs que cantam.

A oposição à direita dirá que está tudo mal, que é preciso uma remodelação, que o governo está enfraquecido e desorientado. A oposição à esquerda vai exigir mais apoios e mais medidas, acenar com a discussão do Orçamento e marcar posições. E a suposta oposição à esquerda que aprovou o último Orçamento e vai aprovar o próximo fará exercícios de contorcionismo para justificar, ao mesmo tempo, porque segura o governo e porque diz mal dele.

No final, acabará tudo como começou. Porque, na verdade, está e vai ficar tudo na mesma. A sondagem de ontem para o DN, o JN e a TSF diz exatamente isso. As variações de PS e PSD estão dentro da margem de erro. Chega e Bloco lutam pelo terceiro lugar, Iniciativa Liberal e PCP disputam o quinto lugar. E o CDS caminha inexoravelmente para a irrelevância. O PS não tem alternativa, o PSD não descola, já ninguém sonha com maiorias absolutas e não há interessados, por todas estas razões, em eleições antes de tempo. A pandemia adormeceu a política e até tirarmos a máscara os eleitores estão - e bem - mais preocupados com a saúde, o emprego e o regresso à "vida normal", do que com as guerras dentro da bolha política, da opinião publicada ou das discussões acesas nas redes sociais.

Para discutir de facto o Estado da Nação seria preciso, antes de mais, ter noção. Ter a noção de onde e como estamos. Da forma como vivemos, sufocados por impostos e maltratados todos os dias pelo Estado de que somos parte, mas que nos olha quase sempre como contribuintes e quase nunca como cidadãos. Ter a noção das reformas estruturais que são necessárias para construir um Portugal mais moderno, justo e rico; enfrentar corporações e interesses, e colocar os cidadãos no centro das políticas. Ter a noção de como vive o que resta da classe média, e libertar os chamados "trabalhadores por conta de outrem" do sufoco orçamental mensal.

Em breve Costa já vai poder ir ao banco, e o dinheiro da Europa, grande parte a fundo perdido, vai perder-se no sistema, como sempre aconteceu. Mesmo que nos garantam que desta vez vai ser diferente. Em Belém, o Presidente tem de, ao mesmo tempo, suportar o governo e fazer alguma oposição. E, entretanto, vamos andar "entretidos" com a silly season até ao fim de agosto e depois há eleições.

É este o estado da nação. Mas se teimarmos em não ter noção, o debate serve de pouco.

Jornalista

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