O dólar, outras divisas e o controlo do sistema financeiro internacional

Após os acordos de Bretton Woods, em 1944, as outras divisas passaram a ter uma relação com o dólar dos EUA (Dólar) que, por sua vez, tinha uma relação com o ouro - "sistema padrão dólar-ouro". Em 1970, 85% das reservas dos bancos centrais eram em Dólares. Com o começo de défices orçamentais sucessivos a partir de 1960, os EUA começaram a perder as reservas de ouro massivas que haviam constituído e o padrão ouro-dólar foi abandonado pelos EUA em 1971.

Mas, entretanto, já o dólar se tinha transformado na divisa preeminente do sistema financeiro internacional, constituindo a principal divisa da larga maioria das reservas cambiais dos outros países, era o meio de pagamento em que as trocas internacionais eram efetuadas, a moeda em que as matérias primas eram cotadas em bolsas de valores, e a moeda de referência em inúmeros contratos, incluindo de emissão de dívida pública, em muitos outros países.

Este estatuto do Dólar - chamado de "privilégio exorbitante" pela França e outros países - permite aos EUA gozar de benefícios que outros países não têm: (i) acesso a financiamento barato na moeda nacional; (ii) benefício da receita de senhoriagem; (iii) fluxos regulares de IDE, em especial em situações de incerteza económica; até porque, na ausência de alternativas que ofereçam a escala e profundidade dos mercados financeiros dos EUA, (iv) investidores oficiais e privados em todo o mundo tornaram-se dependentes de ativos financeiros denominados em Dólares; (v) inexistência de necessidade de promover o equilíbrio da sua balança de transações correntes (uma vez que as suas importações são pagas na própria moeda); (vi) capacidade de proceder a emissões de obrigações do Tesouro quase sem limites.

Entidades várias - a China, a Rússia, o GCC, a UNCTAD, o FMI - propuseram a adoção de uma nova divisa independente ou a utilização dos Direitos de Saque Especiais como divisa de reserva cambial. Mas é improvável que tal suceda.

Outros países gostariam que a sua moeda tivesse um estatuto similar, mas isso só tem sucedido, parcialmente, quanto ao Euro. Dados de 2020 do FMI relativos à composição das reservas cambiais por principais divisas mostram que o Dólar continua a ser a principal divisa (59%) seguida do Euro (21,2%); a grande distância temos o Yen (6%), a Libra Esterlina (4,7%) e o Yuan (2,2%). A influência do país no comércio internacional, a dimensão da sua economia, a relevância dos seus mercados financeiros e o poder de compra (apesar dos triliões de dólares em dívida) mantiveram o Dólar como reserva monetária mundial. O Euro foi a primeira divisa a ameaçar a preeminência internacional do Dólar (o que explica várias tentativas de desacreditar o Euro). O Yuan também reúne alguns desses requisitos e o governo chinês promove uma política de internacionalização do Yuan, mas há muito a fazer para que o Yuan possa ser reconhecido como divisa aceite generalizadamente.

Embora haja boas razões económicas para os próprios EUA favorecerem a existência de mais divisas de reserva com relevo mundial, no curto prazo devem prevalecer considerações político-estratégicas de afirmação da liderança mundial, de desejo de manutenção dos benefícios decorrentes do estatuto do Dólar como divisa preeminente, e de manutenção do controlo do sistema financeiro internacional.

Consultor financeiro e business developer

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