O dilema chinês de Biden

No futuro, o poder económico será a chave para todas as outras formas de poder" - disse Richard Nixon em 1971. O vaticínio viria a manifestar-se de modo particularmente acutilante na China, o gigante adormecido que, no ano seguinte, o presidente dos Estados Unidos acordaria para o mundo na sua histórica viagem a Pequim. A China não tardaria a trocar a exportação da revolução mundial pela expedição de bens de consumo destinados ao Ocidente, dando assim início a uma ascensão meteórica.

Volvido meio século, os EUA dramatizam a imparável ascensão da China, que já não oculta as ambições regionais e até globais, exercendo abertamente as suas múltiplas formas de poder. O governo americano tem boas razões para encarar este desafio geopolítico e geoeconómico como nenhum outro: a China não é comparável à União Soviética. Está à beira de ultrapassar a economia americana - sendo a única grande economia a crescer na crise pandémica -, no plano militar alcançou a paridade com alguns sistemas dos EUA e nas organizações internacionais goza de uma influência crescente. O assertivo Xi Jinping é comparado com Mao Tsé-tung, mas a projeção de poder que dirige recorda Theodore Roosevelt, o presidente americano que quis transformar o seu país numa potência global.

É no campo da alta tecnologia e da inteligência artificial (IA) que a competição entre as duas potências assume carácter decisivo e se joga o futuro da liderança mundial. O tecnonacionalismo com características chinesas pretende dar um grande salto em frente, transformando a China numa superpotência tecnológica. Alguns exemplos recentes neste domínio são ilustrativos: em poucas semanas, o mundo ficou a saber que a China lançou o primeiro satélite 6G do mundo, revelou um computador revolucionário com tecnologia quântica de fotões, pôs em funcionamento um reator experimental de fusão nuclear e que a sonda espacial colocou com êxito uma bandeira chinesa na Lua. Pelo meio, ainda ultrapassou os EUA em número de patentes de IA. A próxima batalha tecnológica da China será o desenvolvimento dos microprocessadores de terceira geração, numa tentativa de ultrapassar o cerco imposto pela administração Trump e a dependência de Taiwan nessa indústria crucial.

O novo Império do Mal

Oito administrações depois de Nixon ter dormido com o inimigo, as elites políticas, económicas e académicas americanas dão-se finalmente conta de que a socialização da China falhou estrondosamente (noutro quadrante, a União Europeia (UE) terá cometido o mesmo tipo de erro de avaliação quanto à Turquia). O regime chinês continua a ser o que é - um Estado-partido autoritário de inspiração marxista-leninista-maoista e agora xi-ista, caldeado num nacionalismo arreigado - e não aquilo que os EUA queriam que fosse, um membro aculturado do clube das democracias.

Na realidade, os EUA evitaram durante décadas o desafio geopolítico protagonizado pela China. Embora Obama tenha ensaiado o recentramento estratégico na Ásia-Pacífico, foi condescendente com a crescente assertividade de Pequim. Como revela nas suas memórias, falou mais alto o peso económico da China, ao não querer incorrer num choque de titãs que implicasse um agravamento da crise financeira mundial. Trump acabou com a ambiguidade estratégica e até declarou "guerra" comercial à China. Mas também foi contemporizador com a ofensiva geoestratégica de Pequim, de que a militarização do mar da China Meridional foi exemplo.

Aproveitando mais uma oportunidade estratégica, os líderes chineses mostram ser bons alunos do pensamento de Nixon e contrapõem à malograda Parceria Transpacífica um ambicioso acordo comercial envolvendo 15 nações da Ásia e da Oceânia, incluindo aliados dos EUA como a Austrália (embora tenha sido alvo de medidas económicas retaliatórias por parte da China), o Japão, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia.

Paralelamente, Xi Jinping avançou com uma nova estratégia económica, a "dupla circulação", aparentemente destinada a um relativo desacoplamento da China das redes globais de comércio, ao mesmo tempo que reforça o consumo interno. Antevendo a perpetuação da pressão americana, joga em dois tabuleiros. Essa separação de águas far-se-á sentir de modo visível no campo tecnológico. Recorde-se que a China já praticou a desacoplamento, quando saiu do programa europeu de satélites Galileu para formar a sua constelação global de satélites Beidou.

A demonização cirúrgica da China, a denúncia de práticas comerciais predatórias, a imposição de tarifas e o alinhamento estratégico EUA-UE numa frente unida vão, provavelmente, prosseguir na administração Biden. O novo presidente prometeu ser "duro" com a China. Por outro lado, democratas e republicanos permanecem unidos na questão do desafio sínico, e essa poderá ser uma mais-valia política para Biden.
Mas como lembra Kissinger, uma coisa é rejeitar uma parceria estratégica que nunca deu frutos, e outra é transformar a China num adversário permanente.
Hostilidade estratégica

Conquanto a UE ensaie uma autonomia estratégica em relação aos EUA, alinhou com Washington na visão da China como "competidora" e "rival" a nível económico e tecnológico. A rivalidade estratégica com a China também transbordou para a NATO, que, num relatório recente, a classifica como "desafio geopolítico e ideológico", considerando ainda provável que, a longo prazo, a projeção global do poder militar chinês inclua a área euro-atlântica.

É neste quadro que a administração Biden terá de enfrentar a aceleração do poder global da China. O dilema consistirá em gerir o delicado equilíbrio entre cooperação e competição. Se Biden cumprir um único mandato, essa poderá ser uma vulnerabilidade. Quando sair da Casa Branca, em 2024, Xi Jinping acumulará 12 anos no poder, sem fim à vista. A maratona estratégica ainda agora começou.

Investigador no Instituto do Oriente (ISCSP/Univ. Lisboa). É autor de China's Techno-Nationalism in the Global Era - Strategic Implications for Europe.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG