O dia triunfal de uma vida

Parece que sim. Álvaro de Campos nasceu mesmo em Tavira a 15 de outubro de 1890, à 01h30 da tarde, seria engenheiro naval por Glasgow, medindo 1,75 metros de altura, mais dois centímetros do que Pessoa. Viajou muito pelo Oriente e pela Europa, vivendo principalmente na Escócia. Em dado momento, Fernando Pessoa adiantou em dois dias o nascimento e mudou a naturalidade de Campos, por misteriosas razões. Mas Eduardo Lourenço deixou claro, quase romanescamente, que, enquanto mito, foi Caeiro o verdadeiro centro do universo de Pessoa. Daí a necessidade de compreender melhor. Ou seja, importaria ter em consideração a importância do poeta prometido a Mário de Sá-Carneiro, que o tempo agigantou - Alberto Caeiro. Foi em 8 de março de 1914. Quando já desistira da descoberta procurada, Pessoa acercou-se da cómoda alta e, tomando um papel, começou a escrever, de pé, como fazia sempre que podia. Escreveu trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase de natureza indefinível. E afirmou: "Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim."

Alberto Caeiro tornou-se realidade, com O Guardador de Rebanhos. Nascido em abril de 1889, "não teve mais educação que quase nenhuma - só a instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos", no Ribatejo, com uma velha tia-avó. Morreria de tuberculose em 1915. Todo o enredo é conhecido, e propositadamente enigmático. Como poeta, talvez procedesse de Pascoaes, virado do avesso... E partindo daqui, o autor de Pessoa Revisitado escreveu mais do que o seu romance: a revelação do que designou como "o verdadeiro whitmanismo de Caeiro" - a chave de uma galáxia literária. Entrando no domínio da metáfora, emerge a psicanálise do texto e não do sujeito criador dele. E os heterónimos de Fernando Pessoa deixaram as interpretações psicologistas, para se remeterem a uma nova leitura dos poemas através dos quais o poeta passaria do Pessoa simbolista à densidade imposta por Caeiro, Reis e Campos. E como? Lourenço explica: "Bastou ler o que está nos poemas para descobrir a "comédia" heteronímica..." De facto, "o que necessitava esclarecimento era o mecanismo textual e imaginário que dera origem não a três universos poéticos de aparência autónoma, mas àqueles textos específicos que foram para o Poeta e são para nós Caeiro, Reis e Campos". E esse esclarecimento tornou-se possível quando o analista descobriu que "o jogo de máscaras de superfície descrito (e encoberto) pelo próprio Fernando Pessoa era um travesti de outro mais radical, cujo centro se encontrava na relação perversa do autor de Ode Triunfal com Walt Whitman. Negado com tão excessivo mimetismo (Álvaro de Campos), Whitman estava presente onde não se buscara (Caeiro). Com este fio condutor os poemas de Campos e sobretudo de Caeiro tinham a primeira leitura textual de que foram objeto e ao mesmo tempo a sua compreensão dialética e poética concretas".

Deste modo, longe do equívoco original de tomar os heterónimos como fragmentos de uma totalidade que se poderia reconstruir, estes revelam-se como a "totalidade fragmentada". E Eduardo Lourenço, longe da ilusão consensual, que nunca desejou, não quis uma quimera destinada a dar coerência a um puzzle. Era Fernando Pessoa, poeta ele mesmo, de antes e depois, que importaria. E Álvaro de Campos revela a essência trágica e impotente: "Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu. / Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!" Mas Alberto Caeiro não é Whitman - é o poeta de Leaves of Grass em ideia. E Adolfo Casais Monteiro como Eduardo Lourenço viram bem o elo forte que uniu toda essa relação complexa.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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