O albergue espanhol, os ciganos e os índios

A direita está cada vez mais um albergue espanhol, cabem lá todos e, por isso, mesmo quando são poucos, como é o caso do CDS, as divergências são fortes. Atenuam-se quando é preciso digerir a derrota e agigantam-se quando começa a cheirar a poder. Tanto lá como no PSD, juntam-se os interesses mais divergentes para apear os líderes e a preocupação é imitar os pequenos partidos que lhes roubam eleitorado mais encostado à direita.

Nem Cavaco, que ensaiou a defesa de uma política económica que deveria estar a ser seguida pelo PS, se furtou de tomar partido contra Rio porque a oposição está "desprovida de uma estratégia consistente de denúncia dos erros, omissões e atitudes eticamente reprováveis do governo." O ex-líder do PSD acredita que o estilo histriónico de Rangel (testado nas europeias) é melhor para a afirmação de uma alternativa. Não aprenderam nada com a vitória de Carlos Moedas em Lisboa, um exemplo de serenidade, recusa de extremismos e resiliência.

No CDS, então, é de bradar aos céus. Um partido que tinha virado à direita com a eleição de Francisco Rodrigues dos Santos admite virar ainda mais à direita, num estilo que, a avaliar pela apresentação da candidatura de Nuno Melo, não fica a dever nada ao Chega de André Ventura. A afirmação de que a lei é para ser cumprida por todos, inclusive "por ciganos e por índios", é tão absolutamente desnecessária, exatamente porque por ser "para todos" não é preciso estar a nomear ninguém. É gato escondido com o rabo de fora, alimenta a xenofobia e o racismo à procura de votos e faz de conta que trata todos da mesma maneira.

Falamos de uma direita em que até o Presidente da República no ativo entende que deve meter estopa, defendendo que a estratégia das coligações foi boa (Paulo Portas pensa o contrário) e deve ser repetida ou reconfirmando a sua preferência por um militante a quem antevê grande futuro. Do que Marcelo não desiste é de tentar evitar o desvio extremista do seu campo político de origem, estando quase permanentemente a lembrar esses perigos populistas e ignorando, sempre que pode, o Chega de Ventura.

Neste albergue, onde cabe igualmente um mínimo grupo parlamentar que, nos últimos 15 dias gastou mais energia a contestar a liderança de Francisco Rodrigues dos Santos do que a fazer oposição ao governo socialista, cresce a convicção de que o regresso ao poder fica naturalmente mais perto à medida que o tempo passa, quem lidera vê o copo meio cheio e quem se opõe vê o copo meio vazio.

Sobra o partido Iniciativa Liberal que necessita de repensar a estratégia de afirmação. Falhou nas autárquicas, não elegendo um único vereador (o Chega elegeu 19), venceu perdido na coligação de Rui Moreira e falhou a vitória de Moedas que quase pôs em causa ao recusar fazer parte da coligação. Há uma arrogância que a leitura dos resultados não sustenta, de quem se julga predestinado a ficar com os votos dos eleitores de direita cansados de anos de PSD e CDS.

Pela direita, o albergue já está sobrelotado, não acrescenta com mais disparates sobre ciganos e índios. O que é absolutamente necessário é crescer ao centro com uma ideia para o país que seja uma alternativa consistente ao que a esquerda tem seguido e que permita. É só isso que a democracia pede. E não é pouco!

Jornalista

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