Níger: na tomada de posse do presidente Mohamed Bazoum

O Níger assiste hoje à tomada de posse do recém-eleito presidente (PR) Mohamed Bazoum (55,75%), sendo que "na véspera", na noite de 30 para 31 de Março, assistiu a uma tentativa de golpe de Estado, liderada por um grupo de militares que não passou das imediações do palácio presidencial, no bairro do Plateau, uma espécie de "Restelo de Niamey", onde se concentram os serviços da presidência e outros centros do poder nigerino.

De forma resumida, o novo PR eleito Bazoum representa a continuidade da liderança de Mahamadou Issoufou, o PR de saída. O principal opositor deste vencedor trata-se do derrotado nas urnas Mahamane Ousmane (44,25%), também ele PR deste país saheliano entre os anos 1993 e 1996, cujo mandato foi interrompido por um golpe de Estado.

A particularidade de Ousmane é a de ter sido o primeiro PR democraticamente eleito no Níger, desde a independência em 1960. Este enredo torna-se interessante, quando percebemos que o que ditou a queda do democraticamente eleito Ousmane foi um decreto deste em 1994, o qual reduzia os poderes do primeiro-ministro (PM) da época, Mahamadou Issoufou, precisamente o PR agora de saída. Fruto desta decisão do então PR Ousmane, o então PM Issoufou demite-se e abandona também o principal partido que sustentava a coligação governamental, lançando o país na instabilidade que habitualmente mergulha os países africanos em disputas étnicas e regionais.

O agora derrotado e ex-PR Ousmane acena com irregularidades e fraude eleitoral, insistindo que ganhou as eleições por meros 50,03% dos votos. Esta é aliás a quinta vez que este político tenta a reeleição após ter sido retirado da presidência, no já referido golpe de 1996. Em face dos resultados apresentados e reconhecidos pela comunidade internacional, a violência saiu à rua como forma de protesto, com pelo menos dois mortos registados.

Porque é que é importante um Níger estabilizado?

Em primeiro lugar para consolidar o combate aos jihadistas que vem sendo implementado no contexto do G5-Sahel, a coligação da Mauritânia ao Chade que faz frente ao santuário jihadista que se foi estabelecendo na região, mas sobretudo no norte do Mali, logo após o 11 de Setembro.

Em segundo lugar, porque o Níger é o principal campo de exploração de urânio pela francesa Areva, de onde é extraído cerca de 80% deste "mineral nuclear", o qual também emprega uma considerável parte da população nigerina. De tal forma a Areva é um pilar de estabilidade no país, que aquando da queda do regime e morte de Kadhafi foi esta empresa que absorveu os tuaregues regressados, não dando hipóteses a que parte do Níger se tornasse num Azawad paralelo ao do Mali, com grupos separatistas aliados a grupos jihadistas, em luta pela secessão de parte do território.

É nesse sentido também que fonte local bem informada nos alertou para o facto de não ser descabido que esta intentona tenha sido orquestrada não pelo candidato derrotado da oposição, mas pelo próprio candidato vencedor e que hoje toma posse, tornando-a assim numa inventona, com o intuito de arrancar pela raiz ervas que considera daninhas nas fileiras militares, ainda antes de tomar posse. E, para as populações, o eterno acenar com o fantasma da instabilidade, num país que já regista quatro golpes de Estado, desde 1960, ano em que passou de colonizado a independente.

Com votos de Santa Páscoa a todos/as!

Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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