Natal significa blindar o arranque de janeiro

Desde o início da pandemia que a grande falha nacional é a antecipação. A seguir, perante as crises, agimos extraordinariamente - fechamos, cumprimos restrições, usamos máscaras, vacinamos toda a gente. Mas sempre atrás do prejuízo. Ora, porque não agimos antes? António Costa hesitou muitas vezes, sobretudo perante as vozes mais extremas na sociedade - e nem sempre a virtude está no meio. Portanto, neste Natal, não podemos repetir o erro do ano passado porque já sabemos como as coisas são. E como são? Simples: Natal haverá, com toda a gente à mesa.

Não adianta proibir. Podemos aconselhar as famílias a fazerem testes em casa, antes de se juntarem, além de se incentivar os mais velhos a vacinarem-se quanto antes. Mas a eficácia disto é relativa. E depois vem o reveillón, onde as festas acontecerão - não vale a pena torná-las clandestinas. Assim sendo, como travar a seguir a disseminação da covid? Só com uma vaga gigantesca de testes a partir de 2 de janeiro. Não podemos voltar à crise do início deste ano, onde a transmissão aconteceu sem qualquer capacidade de reação do Governo perante um vírus que sabemos exatamente como se propaga.

Partindo do princípio que as empresas terão de testar toda a gente no início do ano, é nas escolas que se joga o sucesso desta luta. É ali que se juntam elementos de todo o tipo de famílias - desde as extremamente prudentes às negacionistas. E é ali que o potencial de transferência vírica acontece, sobretudo nas interações sociais fora das salas de aula. Ignorar isto é repetir o mito de que as crianças e jovens não transmitem - lembram-se dessa tese? Olhe-se para os números atuais e recue-se ao que foi dito pela "ciência" ainda há meses. (Como se vê, estamos sempre a aprender, e por mais que queiramos colocar prioridade sociais por cima das probabilidades biológicas, vence a biologia).

A monitorização da abertura das aulas a 3 de janeiro - a prudência aconselharia 10 ou mesmo 17 de janeiro - é determinante para o que virá a suceder nos meses seguintes. Não podemos ter a ilusão de não querer perder uma ou duas semanas de aulas presenciais, e depois pararmos, afinal, mais dois ou três meses. As três semanas seguintes às festas, a par do alargamento da vacinação a todas as faixas etárias, incluindo os mais novos, são a nossa tábua de salvação. Por isso, não tratemos isto, de novo, com base nas convicções, no otimismo ou na ideologia. Tal como no ano passado, os contágios, 5 a 10 dias depois de Natal e Ano Novo, mostrarão imediatamente o que aconteceu. Deixá-los em evolução experimental/exponencial é um novo suicídio coletivo.

O mais grave de tudo isto é que qualquer decisão do Governo é ainda mais difícil neste contexto de uma crise política que gerou eleições no período mais duro do inverno. E aliado a esse facto, Portugal continua a sofrer a crise económica da pandemia, com números de produtividade e crescimento económico que nos deixam ainda longe de 2019.

Não servirá de nada o conforto de olhar para os países vizinhos em pior situação. Já que temos uma das melhores taxas de vacinação do mundo, ao menos não deitemos tudo a perder. Há que manter a economia e as escolas a funcionar em 2022. Para isso só precisamos de determinação num momento muito estratégico: no arranque de janeiro. Se tivermos medo de estancar radicalmente (uma ou duas semanas) a progressão do vírus, já sabemos como isto acaba. E desta vez não temos a desculpa de que não sabíamos.

Jornalista

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