Não cair em tentação

Não é caso único. Em rigor, desde o início da democracia, já são mais de cinquenta as eleições falhadas para a mesa da Assembleia da República. Só que, no caso do terceiro chumbo do candidato do Chega, o que está em jogo é o perfil da democracia no qual se revêm os portugueses.

Vamos aos factos. Primeiro foi Diogo Pacheco de Amorim, depois Gabriel Mithá Ribeiro, e agora Rui Paulo Sousa. Todos chumbados. O último, na passada quinta-feira, conseguiu apenas 64 votos entre os 213 votantes. Os representantes do povo não podiam ter sido mais claros: não querem o Chega sentado nas cadeiras mais altas do hemiciclo.

Desta vez houve, todavia, uma trapalhada do PSD. O seu líder parlamentar Joaquim Miranda Sarmento, num ato de amizade partidária para com o Chega e o seu líder, tomou a iniciativa de apelar aos deputados sociais-democratas para que votassem no candidato da extrema-direita populista. E fê-lo por escrito. André Ventura não cabia em si de contente, registando publicamente o "sinal de normalização" que recebeu do lado laranja e antevendo já eventuais acordos futuros.

Sabendo-se que o PS sozinho chumbaria a candidatura, é pertinente questionar sobre as verdadeiras razões deste apelo do PSD. O que pretenderia Luís Montenegro com um exercício condenado ao insucesso? Apenas consigo vislumbrar um de dois propósitos, ou os dois em simultâneo: medir o pulso relativamente ao controlo do líder sobre o grupo parlamentar (que, recorde-se, resultou de listas preparadas por Rui Rio); e/ou testar as águas relativamente a uma aproximação do PSD ao Chega e a Ventura.

Na trincheira portuguesa, as tropas boas têm de fazer uso da sua arma (o voto, como o fizeram os deputados do PSD) e os líderes democráticos não se podem deixar cair em tentação (como o fez Luís Montenegro).

Face a este movimento arriscado, o resultado não podia ter sido pior. Quase metade dos deputados laranjas ignoraram o apelo, desautorizando o líder parlamentar e o presidente do partido. Um tiro num pé. Além disso, a partir de agora, a latitude de Montenegro para qualquer concertação com o Chega está praticamente esgotada. Outro tiro no outro pé.

André Ventura, como se esperava, vociferou a habitual vitimização, denunciando o que apelida de "maior boicote da Europa Ocidental a um partido". O líder do Chega parece ainda não ter percebido como funciona a regra basilar da democracia: o voto livre. Os deputados votaram em urna fechada, de acordo com a sua consciência. E não lhe quiseram dar a vice-presidência da Assembleia da República. Ao contrário do que diz Ventura, a culpa não é do PS. As mais de três dezenas de deputados do PSD que lhe negaram o voto, apesar da ordem superior, mostraram também a sua fidelidade aos princípios da democracia e a indisponibilidade para dar palco a um partido mensageiro da xenofobia, que anda há mais de dois anos a distribuir insultos e a desrespeitar o Parlamento e a função política. Confirma-se que quem semeia ventos, colhe tempestades.

A ascensão da extrema-direita na Europa, que se verifica há pelo menos quinze anos, é um teste à solidez das democracias. Os resultados eleitorais recentes em França, na Suécia e, previsivelmente, em Itália, mostram que estes não são tempos para facilitismos. Na trincheira portuguesa, as tropas boas têm de fazer uso da sua arma (o voto, como o fizeram os deputados do PSD) e os líderes democráticos não se podem deixar cair em tentação (como o fez Luís Montenegro).

Professor catedrático

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