Na Costa Vicentina

Os nossos benfeitores diminuem o nosso valor e a nossa vontade, mais do que os nossos próprios inimigos.
(Nietzsche)

Quando se vive o ano de trabalho fora do país, vir passar invariavelmente o mês de férias de verão à
mesma pequena vila de Portugal constitui um sobre investimento afetivo que tem óbvias, ainda que não muito visíveis, consequências.

Em primeiro lugar, afeta indelevelmente o sentimento do tempo: este sempre reiterado mês de verão passa a introduzir no tempo linear a rotura de um tempo cíclico, em que tudo se reconhece e reporta a todos os anos que passaram e em que a permanência das coisas naturais faz esbater-se a mudança nas nossas pessoas e o espaço vazio dos que desapareceram. Que filhos e netos aceitem com alegria este mesmo espaço reforça esse sentimento de continuidade e de permanência, capaz de apaziguar a angústia irreversível do escoar do tempo.

Algum custo para mim teve esta ilusória conquista sobre o irreversível e a nostalgia: vivendo fora do país, passar o meu mês de férias numa pequena vila de praia, longe de todos os eixos e focos sociais, alheava-me em parte das mudanças que se iam fazendo em Portugal, mudanças de que eu tomava consciência bruscamente e com hiatos cronológicos, apesar de dispor de abundante informação. Faltava-me sentir a mudança nas falas, nas ideias e nos comportamentos das pessoas. Mas a pequena vila ensinava-me a lição da permanência das coisas essenciais que sobrevivem a todas as mudanças.

Quando aqui chego, escrevo de um outro ponto de vista, porque sinto a ilusão de ter passado para fora do tempo. Como disse Shakespeare, "o pensamento é o escravo da vida e a vida é o bufão do tempo". Nesta praia sustento a ilusão de que vivo uma paragem do tempo linear e de que o tempo cíclico aqui e agora reinstaurado me traz a afirmação plena da vida, nas suas glórias e nos seus fracassos, nos seus júbilos e nas suas dores, na aceitação, sem mágoa nem terror, do próprio destino.

Agora, de dentro do tempo, leio no jornal a denúncia da "apropriação cultural" colonialista e racista que uma atriz branca teria praticado, ao exibir nos seus cabelos de mulher não racializada um penteado "afro".

Quando eu era jovem, um outro penteado "afro", que algumas usavam, representava uma homenagem à militante Angela Davis, que ninguém saberá hoje quem é. Para quem quer que tenha combatido o colonialismo e o fascismo, por pouco que tenha feito, é dramaticamente cómico o espetáculo destas novas denúncias de "apropriação cultural", que, visando encerrar cada cultura nos limites de si própria, representam uma ameaça ao cosmopolitismo e à universalidade que estão na base de todas as lutas emancipatórias.

Estas confusões identitárias, assinadas por gente bem intencionada, vêm só levar água ao moinho dos que negam a luta das culturas oprimidas pela sua afirmação e continuam, mais ou menos subtilmente, do lado dos opressores. O ridículo mata até as ideias justas, porque nada sobrevive à irrisão desmedida. Aliás, se para os novos zelotas só as vítimas têm o direito de assumir e exprimir o discurso dos oprimidos, certamente iriam para o caixote do lixo da História todos aqueles que, a partir de uma condição dominante, tomaram o partido dos dominados, desde o padre Las Casas aos antiesclavagistas dos séculos XVIII e XIX e aos burgueses que inventaram o socialismo. Nem o penteado da branca Rita Pereira nem as teorias do burguês Karl Marx seriam então aceitáveis...

Causei escândalo em tempos nalgumas mentes piedosas por ter ousado duvidar da existência de uma suposta mensagem racista veiculada pelo romance Os Maias. Se os mesmos críticos ainda me lerem, por certo rejeitarão, indignados, mais esta página.

Tal indignação não iria ter qualquer efeito no movimento das marés nem no movimento mais inquietante de apropriação das águas escassas deste verão pelo agronegócio dos frutos vermelhos, o patrão de tantos emigrantes asiáticos que cruzamos nas ruas das vilas maiores e nos mercados.

Os trabalhadores asiáticos reivindicam salários justos e alojamentos dignos: não se lembram de nos ameaçar quando vamos ao restaurante tailandês da aldeia próxima apropriar-nos cultural e materialmente da sua arte culinária...

Mesmo nesta ilusória suspensão do tempo, a História nunca deixa de vir ter connosco.


Diplomata e escritor

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