Mulheres de um tempo novo

Mães, mulheres. Invisíveis, mas presentes. Sopro de silêncio que dá a luz ao mundo. Estrelas brilhando no céu, ofuscadas por nuvens malditas.
- Paulina Chiziane -

Entre as muitas iniciativas do Dia Mundial da Língua Portuguesa, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) promoveu uma mesa-redonda sobre a igualdade de género. Importa recordar que, desde 2009, se comemora a 5 de maio o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP.

Teremos dúvidas sobre a dimensão cultural das questões de género e a necessidade de intervenções ajustadas às diferentes realidades? Foi um debate em português, com a moderação da jornalista cabo-verdiana Rosana Almeida, membro da rede de mulheres líderes africanas nas Nações Unidas e participação de organizações internacionais globais e regionais (Organização Internacional do Trabalho, Centro Norte-Sul do Conselho da Europa e OEI) que atuam em diferentes domínios, mas partilham objetivos comuns assentes no princípio de que a igualdade de género é um Direito Humano que favorece as sociedades no seu todo. O desenvolvimento social também se mede pelos direitos das mulheres e, sobretudo, por práticas de equidade que não sejam apenas formais.

Estimular a criatividade, promover a escolha de profissões científicas, fomentar a educação e a formação profissional, incentivar a autonomia financeira das mulheres, são caminhos de mudança e conquistas que precisam de ser preservadas.

A consciência da importância das mulheres na transformação social tem contribuído para alterar as formas de intervenção. Na década de 60 do século passado, a perceção de que as mulheres eram mais afetadas pela pobreza tornou prioritário o combate às diferentes formas de exclusão social. Nas últimas décadas, porém, entendeu-se a importância de valorizar a liderança das mulheres, não apenas como intérpretes das suas causas, mas contribuindo de forma paritária para o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida. Estamos perante uma importante mudança de paradigma: não se trata apenas de estimular, em situação de igualdade, o acesso aos recursos económicos, sociais e políticos, mas de partilhar o seu controlo e utilização. Alguns passos têm sido dados e a representatividade das mulheres nos órgãos de decisão não é uma mera formalidade. A escolha de governos paritários, por exemplo, além do sinal importante que dá à sociedade sobre capacidades idênticas de homens e mulheres, permite incorporar distintas visões e está mais perto de representar a diversidade das sociedades.

A valorização das lideranças no feminino é um caminho a prosseguir. Contudo, não deixamos de ter evidentes sinais de que as mulheres continuam a ser as mais afetadas pelas crises, como provam os últimos anos. As mulheres estiveram na linha da frente da resposta à pandemia, desde logo enquanto maioritárias no setor da saúde, nos cuidados aos mais idosos, no acompanhamento das crianças e jovens, e ainda na educação. Com a crise económica, foram as primeiras vítimas do desemprego ou do desaparecimento de trabalhos informais, tornando-se no grupo mais vulnerável à pobreza. Só na América Latina, desde 2019, há mais 23 milhões de mulheres em situação de pobreza, num total de 118 milhões. Por outro lado, durante a pandemia, aumentou a violência contra as mulheres, estimulada pelo confinamento e ampliada pelas dificuldades económicas.

Mais uma vez a educação, a ciência e a cultura são contributos essenciais para a mudança. Estimular a criatividade, promover a escolha de profissões científicas, fomentar a educação e a formação profissional, incentivar a autonomia financeira das mulheres, são caminhos de mudança e conquistas que precisam de ser preservadas.

Na próxima sexta-feira, inaugura-se no Museu da Presidência uma exposição dedicada a Maria de Lourdes Pintasilgo, Mulher de um Tempo Novo. A sua ação e o seu pensamento continuam pouco conhecidos e, no entanto, mais do que nunca nos trazem uma reflexão inovadora sobre as dinâmicas sociais contemporâneas. Ela esteve muito à frente do seu tempo, tendo compreendido que retirar as mulheres da sombra é descobrir uma voz completa que nos torna a todos mais fortes e humanos.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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