Mugabe e Trump, filhos do mesmo monstro

Apesar das boas notícias vindas do estado da Geórgia, o essencial da semana política americana deixou muitos de nós estupefactos, neste lado do Atlântico. Entre outros aspetos, veio lembrar-nos que a democracia é um combate sem fim, que nunca pode ser considerado como definitivamente ganho. Também nos mostrou que a existência de instituições sólidas permite defender a democracia, quando atacada por demagogos, oportunistas, charlatães, aspirantes a caudilhos ou meros arruaceiros. Mas, atenção, pois também vimos esta gente tentar servir-se das instituições para procurar consumar o assalto ao poder.

No centro da investida antidemocrática temos, como se sabe, o infame Donald Trump. Curiosamente, à medida que fui seguindo as suas manobras, veio-me à lembrança o falecido Robert Mugabe, que esteve décadas à cabeça do Zimbabué. Pode parecer despropositado meter Trump e Mugabe no mesmo saco. Sobretudo porque Mugabe era um político culto, hábil em matéria de diplomacia e profundo conhecedor dos meandros geopolíticos. É difícil comparar um tirano cujo comportamento oficial fazia pensar na imagem que se tem de um aristocrata escocês, enquanto os seus acólitos eliminavam os opositores ao regime, com um egomaníaco, que se comporta como um rufião sem miolos. Por isso, não comparo. Mas o telefonema que Trump fez para exigir, ao longo de uma hora de ameaças e de raiva mal contida, que o responsável das eleições na Geórgia "encontrasse" - inventasse - o número de votos necessários para falsear os resultados, e colocar o derrotado como vencedor, não ficaria atrás das fraudes eleitorais que Mugabe mandava orquestrar. Quando, um número de vezes, lhe levantei a questão da batota, o líder zimbabueano sempre me retorquiu que quem está no poleiro, e deixa fugir a vitória, deve ser visto como um pateta político. Ora ele, tolo, não era.

Como Trump se considera um génio, não pode aceitar a derrota. Sobretudo contra alguém que ele considera fraco, um meio adormecido. Também Mugabe olhava para os seus opositores com enorme desprezo. Uma mesma linha com vários matizes une de facto os ditadores.

Nunca imaginei que um presidente americano me fizesse pensar nos déspotas que fui encontrando em cantos perdidos por esse mundo fora. Fico igualmente preocupado quando vejo senadores e membros da Câmara dos Representantes apoiarem, submissa ou oportunisticamente, as derrapagens e tentativas golpistas de Trump. A minha preocupação aumenta para o nível do pesadelo quando noto que milhões de cidadãos americanos se empenham, de modo obsessivo, nesses intentos antidemocráticos. A conclusão é aterradora: uma parte importante da sociedade norte-americana está imbecilmente radicalizada. Há aqui um perigo latente de violência, quer a nível interno quer na cena internacional. A gravíssima desordem que agora aconteceu em Washington, instigada pelo rufião, faz-me temer o futuro.

Perante isto, a UE tem de ser prudente no relacionamento com os EUA. Os próximos anos - enquanto durar a administração Biden - poderão ser apenas um interregno de bom senso, numa paisagem política mais complexa e inquietante. Da próxima vez, será possível que conquiste a presidência um sucedâneo do golpista de hoje, mas numa versão mais inteligente. Com o tempo, uma liderança desse tipo poderá levar o país a uma confrontação internacional, arrastando os europeus nessa loucura. O que aconteceu no Afeganistão ou no Iraque, com os europeus à trela, passaria a ser visto, comparativamente, como simples bulhas entre bairros rivais.

A UE tem de aproveitar o mandato de Joe Biden para reforçar a sua autonomia nas áreas vitais de política interna e internacional. Isto significa manter uma relação cordial com os EUA, mas mais equilibrada e progressivamente emancipada. Assim, considero que o fortalecimento da coesão europeia, nas suas diferentes dimensões, deve constituir uma prioridade absoluta para os próximos quatro anos. Não é uma tarefa fácil, sobretudo depois do reacender dos nacionalismos em virtude da pandemia e tendo em conta o período de vacas magras que temos pela frente, mas é uma tarefa que tem de ser levada a cabo. Para tal deve também contribuir a realização da planeada Conferência sobre o Futuro da Europa, um processo que requer a participação dos cidadãos, e cuja proposta precisa rapidamente de renascer das cinzas.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

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