Metro de Coimbra: sistema de mobilidade ou carnificina verde sem base legal?

O massivo abate de árvores em Coimbra "para fazer passar o Metro" está a causar perplexidade aos cidadãos que vem tentando, por diversas formas, impedi-lo. Vamos aos números:

-- um canal de obra do metro bus+serviços básicos de mais de 21 metros de largura a atravessar áreas centrais da cidade, varrendo tudo que encontra no seu caminho, muros, pré-existencias, rotundas ornamentadas com árvores, arbustos, e pasme-se, várias centenas de árvores adultas;

-- este abate de árvores não é inédito apenas pela sua escala, impressionante, pois estão a ser cortadas mais árvores do que existem no dois parques da cidade juntos, o Manual Braga e o Verde, é-o também pela sua motivação, a de renovar e ampliar redes de infraestrutura de saneamento e, abastecimento de agua e para (re)pavimentar pracetas, estacionamentos ou, imagine-se, mudar a localização de um cabo de telecomunicações; porque sim.

Note-se que o canal de 7 metros projectado para a passagem do novos autocarros aproveita, na maior parte do seu trajecto, um outro, de 5 metros, onde passava o caminho de ferro. A opção de colocar ao lado do metro bus mega colectores que podiam estar por baixo desse corredor está a conduzir ao varrimento, com a ligeireza de quem limpa a berma da estrada, de árvores adultas de grande porte, algumas centenárias.

À incapacidade de priorizar as árvores num projecto do tamanho de uma cidade, soma-se a de compreender os inestimáveis serviços culturais, identitários (na construção da memoria colectiva e da imagem da cidade), e ambientais prestados pelas árvores, bem como o seu papel central na saúde mental e fisica das pessoas, sobretudo as idosas ou vulneráveis.

Aqueles a quem os conimbricences confiaram os destinos de Coimbra decidiram de forma autocrática, julgar, condenar sem direito a defesa, e colocar no corredor da morte, mais de 500 arvores, chamando necessidade ao que não passa de mau desenho urbano, de progresso à pena capital, e bom gestor urbano ao carrasco.

O novo sistema de mobilidade de Coimbra, porém, não é o progresso, não é o futuro. É antes um regresso a um triste passado (em que políticos sem escrúpulos nos vendiam a ilusão do "progresso"), levado a cabo uma fatal ilegalidade:

-- a ausência de estudo de impacto ambiental (EIA) devidamente actualizado.

Uma providência cautelar e uma acção popular denunciaram ao Ministério Público e Tribunais esta inconformidade, bem como as irregularidades do abate do plátanos históricos da Av. Emidio Navarro. O metro-bus-monstro-urbano-voraz-que-devora-árvores, afastou, chocando, os cidadãos que amam a cidade e suas árvores. Autarcas que não os ouvem irão encontrar resistência. Não violenta mas, firme.

Arquitecto e professor de Arquitecura e Urbanismo, residente em Coimbra

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