Menos propinas, mais qualidade e responsabilidade

Esta semana assistimos a manifestações de estudantes, nomeadamente da mais antiga e histórica associação de estudantes do País, a Associação Académica de Coimbra, apelando à abolição das propinas ou à propina zero. Nada contra.

O atual governo tem vindo a caminhar nessa direção tendo já reduzido a propina em 40%. Há uma crença generalizada que a propina é um impedimento a que os mais desfavorecidos estudem. Na realidade, os verdadeiramente desfavorecidos não pagam, há muito, qualquer propina e têm outro tipo de apoios provenientes do sistema de bolsas do Estado. Ainda assim, ninguém tem dúvidas que quanto menor for a despesa das famílias, mais estudantes conseguirão prosseguir os seus estudos. Podemos, pois, como Estado e País solidário que somos, caminhar para a abolição da propina, acreditando que isso permitirá aumentar a literacia da população.

Mas esta medida, só por si, não resolverá os problemas do ensino superior nem a sua melhoria. É preciso apostar numa efetiva política de qualidade do ensino, monitorizando a relação de ensinar e aprender, garantindo que a competência e conhecimento dos professores consegue transferir para os seus estudantes a informação e formação necessária. Cabe aos professores assegurarem um ensino atualizado e competente, cuja apreensão pelos estudantes seja garantida e se traduza na formação de homens e mulheres capazes de desempenhar os objetivos que os trazem ao ensino superior. Essa competência passa por corpos docentes qualificados, atualizados, conectados com a investigação de novos saberes e de novas aptidões pedagógicas, mas também por uma grande disponibilidade para acompanhar os estudantes. Hoje o ensino superior exige que os seus professores sejam altamente qualificados (doutorados), mas também profundamente especializados naquilo que ensinam.

Contudo, o sucesso do ensino superior passa fundamentalmente pela responsabilidade e empenho dos estudantes. São estes os destinatários e beneficiários do trabalho e do investimento feito e são os estudantes que transportam para o mundo os saberes adquiridos no exercício da sua vida profissional, pessoal e social. São também eles os professores do amanhã, que irão transmitir novos saberes e transferências de conhecimento às gerações seguintes. Por isso, se a luta pela propina zero é compreensível, já a luta pela possibilidade de não prescrição - ou, dito de outra forma, de se eternizarem anos a fio nas instituições sem um limite à ocupação das finitas oportunidades que o Estado é capaz de garantir - parece não ser compatível com uma cultura de responsabilidade que importa garantir aos que terão, no médio prazo, a liderança da sociedade.

É, pois, indispensável criar uma cultura de responsabilidade nas comunidades académicas, cabendo aos estudantes aproveitar as oportunidades disponibilizadas, aos professores garantir qualidade a essas oportunidades e ao Estado não permitir, em momento algum, a discriminação dos menos protegidos.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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