Lutas intestinas pelo poder que minam o governo

Só faltava a um aeroporto que está por construir há cinquenta anos virar agora instrumento de luta política pelo poder dentro do Governo.

Mas afinal o que terá levado Pedro Nuno Santos a avançar com um anúncio de dez mil milhões de euros com um mero despacho de um secretário de estado e uma entrevista num canal de televisão?

Não é de hoje a surda luta politica entre Pedro Nuno Santos e António Costa, tendo em vista a ocupação futura do cargo de secretário-geral quando António Costa "meter os papéis para a reforma".

Já vem de trás a trajetória do ministro das Infraestruturas nos exercícios de provocação e afirmação face a António Costa. E não é a primeira vez que Pedro Nuno Santos é desautorizado pela habilidade política e o instint killer de António Costa. Lembram-se quando o ministro das Infraestruturas quis levar o Plano de Reestruturação da Tap ao Parlamento e teve de "meter a viola no saco" ao ser travado por Costa? Ou dos seus provocadores atrasos nos congressos querendo chamar a atenção dos seus apoiantes num exercício de afirmação face aos conclaves socialistas.


Pois bem, este é o espírito de chanllenger com que Pedro Nuno Santos está no governo. Fazer as coisas sozinho, desarticulado do conjunto do Governo, em confrontação surda com o primeiro-ministro. Foi isto que voltou a acontecer. Pedro Nuno Santos acreditou que ao avançar com o anúncio do aeroporto que está por construir há cinquenta anos mostrava uma inabalável determinação face a um primeiro-ministro cada vez mais ausente que parece mais interessado nos palcos internacionais do que em tratar dos assuntos domésticos. Terá talvez pensado! Ora ele anda lá por fora e eu vou mostrar como sou determinado a tratar dos problemas dos portugueses. Portanto, capital político de prestígio para o futuro. E com a mérito de se antecipar a Luís Montenegro que está a quarenta e oito horas de se tornar o próximo líder do maior partido da oposição. Tudo isto numa espécie de "vejam lá como eu vou ser quando um dia for primeiro-ministro"

Tudo vantagens, claro!

Bom, mas a coisa não correu bem! Costa resolveu mais uma vez mostrar a Pedro Nuno Santos que ainda "não meteu os papéis para a reforma" e tirou-lhe o tapete levando-o a estatelar-se ao comprido. Acontece aos melhores e eu até acho que Pedro Nuno Santos é dos melhores ministros deste Governo. É pragmático e virado para as coisas práticas. Veja-se o excelente trabalho que está a fazer na ferrovia. Mas no melhor pano cai a nódoa!

Pedro Nuno Santos foi precipitado. Uma obra desta envergadura, com 50 anos de hesitações, dúvidas, fraturante na sociedade portuguesa, deveria ser lançada com o máximo de consenso possível. E com todas as dúvidas desvanecidas.
Pois bem, isto não foi um erro de comunicação. João Cepeda pode dormir descansado. Terá sido descoordenação, uma das funções primordiais do primeiro-ministro. De facto, Costa estava há muito sem controlo sobre Pedro Nuno Santos.
De toda esta trapalhada e do facto de haver no Governo ministros que tratam os problemas do país a pensar no seu futuro político resulta um Executivo enfraquecido.
Seria de esperar que um Governo de maioria absoluta tivesse as melhores condições para construir o malfadado aeroporto. Mas não! Resta-nos no fim desta triste história um Executivo mais enfraquecido. E um ministro, politicamente, humilhado que a partir de agora não sabemos bem com que condições políticas vai gerir dossiers tão importantes como a TAP ou os futuros empreendimentos.

Estes três meses de maioria absoluta não nos deixam antever nada de bom. Ou o Executivo arrepia caminho ou esta maioria absoluta gastar-se-á num mau governo de gestão. E o Presidente da República não poderá deixar de ter os olhos bem abertos para a situação que o país está a viver. Com uma guerra no terreno e a situação financeira a degradar-se, diariamente, não é aceitável ter um Governo que se desgasta em lutas intestinas em vez de tratar convenientemente dos problemas dos portugueses.


Jornalista

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