Lula ou Bolsonaro

Há quatro anos, muitos atenuavam a gravidade das declarações de Bolsonaro, dizendo que ele recorria a retórica como forma de chamar a atenção para questões importantes. Uma vez eleito, argumentavam, a responsabilidade da governação encarregar-se-ia de o moderar. Tragicamente, constatou-se o contrário.

Hoje, não subsistem dúvidas sobre o que Bolsonaro pensa e representa e sobre a forma como governou.

Do negacionismo científico que causou milhares de mortes por covid-19 ou a devastação da Amazónia, aos ataques à democracia, que nos fazem temer um golpe semelhante ao tentado pelo seu mentor Donald Trump, Bolsonaro é responsável por um verdadeiro retrocesso a nível sanitário, ambiental, económico, social, cívico e democrático no Brasil.

O Brasil hoje está pior, muito pior.

Só que a lógica de tribo que instiga nos seus apoiantes, contribuindo para a crescente polarização, afasta toda a racionalidade da avaliação política. Acresce que a alternativa a Bolsonaro é o PT e Lula da Silva, odiados pelos apoiantes do atual Presidente.

Pelo seu lado, Lula da Silva procura lançar pontes para diferentes setores sociais, escolhendo o centrista Geraldo Alkmin, do PSB, para vice-presidente e apresentando um discurso moderado. Sempre que pode, recorda como o Brasil se desenvolveu durante os seus dois mandatos, dezenas de milhões saíram da pobreza e o Brasil passou a ter uma voz no contexto internacional. Os seus apoiantes, por sua vez, também odeiam Bolsonaro.

O ambiente está perigoso. Como dizia Tom Jobim, "o Brasil não é para principiantes".

É no contexto de uma campanha eleitoral ao rubro que o Brasil celebra o bicentenário da sua independência. Seria bom que a ocasião fosse um momento de reencontro e união, mas Bolsonaro está a fazer tudo para que se transforme num momento de nacionalismo exacerbado e promoção eleitoral, cavando as clivagens já existentes.

Como não poderia deixar de ser, Portugal estará representado ao mais alto nível nas comemorações. Mesmo se bem recentemente o Presidente português foi desconvidado de um almoço com Bolsonaro, como retaliação por Marcelo Rebelo de Sousa se reunir com o ex-presidente Lula. As razões de Estado e a união dos nossos povos mantêm-se (e bem) acima das circunstâncias e das diatribes de Bolsonaro.

Se a posição institucional de Portugal é, obviamente, de neutralidade na disputa eleitoral, já os partidos políticos não se devem eximir de tomar posição num momento tão crucial para o Brasil. Os socialistas & democratas europeus expressaram claramente o apoio a Lula já em novembro, quando o recebemos no Parlamento Europeu. Nessa altura era já muito claro que o antigo presidente é a alternativa a Bolsonaro e às suas derivas antidemocráticas. Hoje viajamos para o Brasil, para novamente reunirmos com Lula e sublinharmos esse apoio, que é também um apoio à democracia no Brasil.

Bom seria que a direita portuguesa e europeia fossem também claras relativamente ao seu posicionamento nestas eleições. O silêncio cúmplice relativamente a Bolsonaro pode ser útil para não afastar os eleitores de extrema-direita que pretendem cortejar, mas é um péssimo serviço à democracia.

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