Lula no prato

Em julho de 2018, o DN tentou saber quem eram os eleitores de Bolsonaro, na altura só atrás de Lula da Silva, já detido, nas sondagens para as eleições de dali a dois meses.

Por qual razão votariam eles num candidato que se revelara mau militar, de acordo com relatórios do oficialato, medíocre deputado, tendo em conta a aprovação de meros dois projetos em 30 anos de atuação, e repugnante cidadão, ao elogiar torturadores e ditadores e diminuir mulheres, indígenas, quilombolas e qualquer minoria que sentisse vulnerável?

Muitos dos seus eleitores eram - e continuam a ser - cidadãos repugnantes que simplesmente se reviam no líder, mas outros optaram por Bolsonaro por razões pragmáticas: ele, como nenhum outro candidato, soube ler o subtítulo invisível das eleições de 2018 - "contra a corrupção e a roubalheira" - e falar ao coração do brasileiro médio.

O mesmo subtítulo das eleições de 1989, que elegeram Collor de Mello, autodenominado "caçador de marajás", e das de 1961, que elegeram Jânio Quadros, cujo slogan era "varre, varre vassourinha, varre a corrupção", outros dois aventureiros que, no fim das contas, acabaram as carreiras políticas sob acusação de subornos e desvios.

Um desses eleitores com quem o DN falou, o advogado Vinícius Seixas, de Franca, cerca de 500 quilómetros a norte de São Paulo, explicava que a esquerda perdera a conexão com o povo, maioritariamente conservador nos costumes, ao concentrar-se em questões identitárias. "Quem quer saber da luta dos homossexuais? Só uma bolha na imprensa e no mundo artístico. A população quer é sentir-se representada, de uma vez por todas, por políticos que não roubem, simples assim", justificava.

Eram os tempos da ressaca da Operação Lava-Jato, que acusou ou prendeu gente de todos os partidos, sob a liderança de um juiz, Sergio Moro, que trocaria a carreira para abraçar o projeto vencedor de Bolsonaro, o maior beneficiado da razia justiceira.

Mas se 2018 teve esse subtítulo - "contra a corrupção e a roubalheira" -, a deste terá outro muito diferente - "contra a fome e a miséria".

Em 2004, segundo ano do primeiro governo Lula, 36% dos brasileiros viviam sob "insegurança alimentar" leve, moderada ou severa, de acordo com os padrões internacionais. Em 2013, já sob Dilma Rousseff, o número baixou para o mínimo histórico de 21%, o que levou o Brasil a festejar a saída do Mapa da Fome da ONU no ano seguinte. Hoje, segundo a mesma tabela, são mais de 55% aqueles que sofrem algum tipo de restrição alimentar, um recuo a números pré-governos do Partido dos Trabalhadores que atirou, de novo, o país para o Mapa da Fome.

"Bolsonaro desmontou a rede de segurança alimentar que poderia até ter evitado um quadro tão complicado na pandemia", acusa Walter Belik, coordenador da Iniciativa América Latina e Caribe sem Fome da ONU e cocriador do programa Fome Zero, em 2003, no Brasil, ao jornal Folha de S. Paulo.

Por isso, se hoje algum repórter estranhar por qual razão metade dos eleitores vão votar em Lula, preso em 2018 por ordem de um dos outros candidatos, Moro, para benefício eleitoral de mais um, Bolsonaro, a resposta é óbvia. Tão óbvia que talvez nem mereça reportagem: eles vão votar no candidato que tirou 40 milhões de compatriotas da miséria e lhes encheu o prato de comida. Simples assim.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG