Lula: fale menos

A recomendação dos médicos que efetuaram a laringoscopia de Lula da Silva, segunda-feira, dia 20, em São Paulo, para retirada de uma lesão numa corda vocal, pareceu mais um certeiro conselho político do que uma fria observação clínica: "Por uns tempos, o paciente deve falar menos".

Lula, que já se livrou do terrível vício, o tabaco, que gerou um tumor na laringe em 2011, curado em 2012, vinha mostrando que mantém muito vivo um outro vício, menos prejudicial à saúde, mas potencialmente danoso à boa governação: o de não resistir a discursar, fazendo uso das suas lendárias rouquidão e capacidade de improviso, a cada palanque que encontra.

O presidente eleito estava desde a noite de domingo, dia 30 de outubro, até à recomendação médica com cara de conselho político de segunda-feira, dia 20 de novembro, em "modo campanha".

E assustar o "mercado", por ter dito que o teto orçamental de gastos previsto na Constituição deve ser furado para combater a fome, foi o menor dos estragos causados pelos discursos em looping de Lula, até porque, se o citado sistema financeiro vive tranquilo com os ataques de Jair Bolsonaro ao voto eletrónico e à democracia e fica nervoso quando Lula fala em acabar com a miséria, nem merece crédito.

O pecado das intervenções do eleito é que elas, ao contrário do que ensinou São Francisco de Assis, não têm levado união onde há discórdia. Conciliador nato - um dos seus bons vícios -, o novo presidente brasileiro vem se esquecendo de se aproximar dos mais de 58 milhões de compatriotas que votaram no outro candidato, por mais sinistro que ele seja.

Vem se esquecendo de que é presidente de 213 milhões de brasileiros e não apenas dos mais de 60 milhões que lhe são gratos por terem tido acesso a comida, a assistência médica, a cursos, enfim, à cidadania entre 2003 e 2010, ou daqueles que, mesmo privilegiados, sonham com um Brasil mais inclusivo, mais justo, mais diverso, mais ecológico, mais gentil, mais feliz.

O que move os brasileiros que votaram em Bolsonaro deve ser respeitado, ouvido, levado em conta pelo novo presidente.

Claro que não é fácil, nem para São Francisco de Assis, propor diálogo com a turba "patriotária" que na semana passada, em Porto Alegre, pôs telemóveis a piscar em cima da cabeça a pedir auxílio extraterrestre à anulação das eleições.

Ou com o grupo que cantou o hino na direção de um pneu, dias antes. Ou com o pessoal que marcha de forma ridícula em frente a quartéis a pedir o regresso da ditadura. Ou com o bando que espalha vídeos de uma juíza de Haia a dar razão às pretensões golpistas, sem se incomodar que a magistrada em causa seja a cantora Lady Gaga.

Mas, por detrás da seita alucinada, há um vestígio de causas, eventualmente, justas: pede-se rigor nas contas públicas, uma relação o mais republicana possível entre os poderes em Brasília, reformas, a tributária e outras, urgentes e respeito pelo conservadorismo nos costumes de boa parte da população, por mais que isso custe aos progressistas, aos urbanos, aos moderninhos, aos woke, tantas vezes com défice de humildade na discussão desses temas.

Em suma, Lula: ouça o outro lado. E ouça os médicos: fale menos. Veja o caso do ainda inquilino do Alvorada: anda calado desde a derrota e têm sido as melhores semanas do seu mandato.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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