Limpezas de Primavera

As limpezas de Primavera remontam aos tempos dos Persas, ao que aparenta, durante o período de Ano Novo. Era assim tradicional limpar completamente a casa antes ou durante a primeira semana da Quaresma, que se intitulava como "a Semana Limpa".

Uma vez que a Primavera está à porta, será esta a altura indicada para se começar com as limpezas. Deixemos os asseios caseiros na esfera individual de cada um e atentemos às limpezas públicas, não estivéssemos em ano de eleições autárquicas. E bem sabemos quando há eleições! Os passeios aparecem mais arranjados, as passadeiras pintadas, os jardins floridos, as luzes mais brilhantes ou as ruas recém asfaltadas. Enfim, uma panóplia de melhorias que o cidadão não esquece no dia exato em que é chamado a pôr a cruzinha.

Esta é a época em que nas nossas casas levamos a organização mais a sério. Por isso aproveita-se para arrumar aquela gaveta que ninguém vê - onde descansa a lanterna que só fará falta se um dia o quadro elétrico falhar -, mas que estando ordenada nos poupará um conjunto de chatices e despesas.

Não me proponho tratar das limpezas da casa. Prefiro antes aproveitar o momento para observar a tal gaveta esquecida. E sentindo que as eleições se aproximam, importa olhar para o plano que pretende evitar que as zonas baixas da Cidade de Lisboa se tornem num género de "Veneza à Portuguesa".

O Plano Geral de Drenagem de Lisboa (PGDL) configura-se como um dos maiores investimentos da autarquia da Capital. São mais de 140 milhões de euros para prevenir, num horizonte a 100 anos, os efeitos das chuvas severas e das alterações climáticas. Está em plena execução desde há dois anos, prevendo-se a sua conclusão até 2024.

O grande objetivo do PGDL passa por desenvolver uma solução integrada de controlo das cheias e inundações, dotando Lisboa de infraestruturas de drenagem com capacidade a longo prazo e que minimizem os seus impactos. De acordo com o plano aprovado em Câmara por unanimidade, o objetivo concretizar-se-á através do transvase de bacias e da construção de dois túneis entre Monsanto e Santa Apolónia (com 5 km) e Chelas e o Beato (com 1 km), ambos com um diâmetro de 5,5 m.

Outras intervenções foram já concretizadas, desde o controlo na origem (bacias de retenção/infiltração), o reforço ou reabilitação da rede de saneamento conceptual ou a melhoria do conhecimento da rede de saneamento da Cidade e seu funcionamento (o cadastro, a monitorização e o aviso).

O PGDL é magnânimo e ambicioso, mas não vai acabar com ocorrências de cheias. Não há, aliás, nenhum plano que o consiga fazer. Contudo, é unânime que vai evitar e reduzir as situações de cheias e minimizar o impacto dessas na Cidade.

140 milhões de euros é muito dinheiro. Por essa mesma razão justifica-se a opção do Executivo em incluí-lo no empréstimo feito junto do BEI. Os benefícios são vários, mas realço dois: a implementação do PGDL (2020-2030) extravasa o prazo do atual mandato e as condições são economicamente vantajosas, tendo em conta o esforço financeiro da autarquia. Convém ainda salientar que este empréstimo está dependente de uma candidatura ao plano de investimentos estruturantes europeu.

Mais difícil será talvez justificar o porquê de algumas forças políticas terem votado a favor do PGDL na Câmara e depois se absterem na Assembleia, tal como fizeram com o empréstimo que serve de sustentação à sua concretização. Por mais voltas que dê, não consigo entender como se advoga a favor de um plano e seu financiamento em fórum camarário e se passa a um estado naïve no espaço por excelência para suportar a sua concretização.

Mistérios à parte, a Primavera está quase a chegar e a obra continuará - mesmo sem se ver. Essa é a grande vantagem de uma autarquia com um projeto de Cidade e que não está minimamente preocupada com o aumento de obra "para inglês (e português) ver" em período de eleições. Os lisboetas têm um conhecimento vasto sobre a maior parte dos planos para cidade, estejam esses efetivados ou em execução.

Sim, porque há quem diga que faz ou promete vir a fazer e há quem concretize na realidade. E ainda bem que assim é.

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