Juventude, um objetivo maior

Trabalhando numa organização internacional, recebi muitas reações de colegas e entidades aos resultados das eleições. Além da singularidade de um resultado que não era esperado e da convulsão do sistema partidário, o que mais impressionou nestes tempos de pandemia foi a participação eleitoral, baixando a abstenção, contrariando as conjeturas que apontavam em sinal contrário dado o elevado número de eleitores em condição de isolamento. Depois de diversos pareceres e julgamentos, a Procuradoria-Geral da República fez saber que ninguém poderia ser impedido de votar, ainda que respeitando as regras essenciais (o que, a bem dizer, é o respeito que devemos aos outros e a nós próprios). Mais uma vez nós, os portugueses, demos um exemplo de cidadania e sentido de dever, de forma serena e atenta.

Agora que o berbicacho dos últimos meses está esclarecido, importa deixar assentar a poeira e pensar no que continua a correr menos bem e no que é essencial mudar. Os mais jovens continuam a ser os que mais se abstêm, descrentes da política, desiludidos com a solidariedade intergeracional e fechando-se dentro de si para enfrentar o futuro. Estou a generalizar, mas há muitos que assim pensam e assim agem, desligados do sentido de bem comum que, em seu entender, não os abrangerá.

Importa que todas as políticas considerem os mais novos, incluindo os jovens adultos, ouvindo a sua voz, respondendo às suas preocupações e promovendo a sua participação ativa nos diferentes níveis de decisão. Importa que os mais velhos mostrem de facto que pensam num futuro que pode não ser o seu.

Antes da pandemia, três organizações internacionais (OEI, CPLP e OIT) promoveram em conjunto uma conferência de jovens sobre o futuro do trabalho em que a palavra foi deles.

Abordou-se o tema central das competências digitais (como a pandemia veio acelerar essa necessidade!), mas também da capacidade empreendedora e ainda da proteção social. Os jovens não pedem um mundo em que os empregos estejam à sua espera, mas exigem que os preparem para o futuro e sejam encontradas soluções de sustentabilidade.

Não devemos ignorar as consequências da pandemia no futuro dos mais jovens. O encerramento das escolas, a dificuldade de acesso às redes de comunicação, o aumento do abandono escolar extensivo ao ensino superior onde estavam a chegar novos grupos sociais, o desemprego jovem e o adiamento da entrada no mercado de trabalho - muitas são as razões para darmos prioridade a políticas que lhes devolvam a esperança.

Em 2022, celebra-se o Ano Europeu da Juventude que, antes do mais, deverá dar-lhes a palavra. Os objetivos traçados são a construção de um futuro melhor - mais ecológico, mais inclusivo, mais digital -, mas o grande objetivo tem de ser conseguir a participação ativa dos jovens e integrar a sua visão nas escolhas (a política é sempre uma escolha entre soluções).

Em Portugal, as eleições traçaram um rumo, mas não nos deixemos iludir: se este não incluir os jovens, continuaremos uma sociedade fraturada. A minha geração sonhou votar livremente, viveu os anos de chumbo da ditadura (sem direito a expressar opinião, sem poder sequer ler, ouvir, conviver com outros mundos, orgulhosamente sós) e, por isso, votar é para mim um dever mais do que um direito. Importa que os mais novos percebam o que a democracia (o mais imperfeito dos regimes) lhes permite, inclusive a possibilidade de uma participação ativa, aos mais diferentes níveis. Teremos perdido todas as conquistas se não olharmos para o futuro e não fizermos da juventude o nosso objetivo maior.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG