Jorge Borges de Macedo e a História da Cultura ou "a imensa diversidade do humano"*

Jorge Borges de Macedo (JBM) faria 100 anos no próximo dia 3 de março. No longínquo ano de 1988 entrei numa sala de aulas na Faculdade de Letras de Lisboa (FLL) para ser aluno de JBM. Nesse ano, o professor catedrático da FLL tinha escolhido duas turmas: uma do 1º ano e outra do 4º. Na primeira lecionaria Metodologia da História. Com 17 anos, recém-chegado a Lisboa e à FLL, as aulas de JBM abriam-me novas perspetivas. Professor exigente, dotado de um sentido de humor, por vezes ácido, ensinou-me que o mais importante era olhar para o "concreto vivido" nas sociedades e, na dialética entre o concreto e a teoria, poderíamos encontrar as explicações para os fenómenos que a História estuda. Uma História que só faz sentido apreendida na sua globalidade. Essa forma de olhar para a realidade e a profunda desconfiança face ao pensamento dogmático são heranças do professor JBM.

Não resisto a uma nota pessoal. Apesar da sua fama de exigente e difícil, relembro a atenção que teve com os seus alunos do primeiro ano: pediu que, de sua casa, telefonassem a cada um, avisando que não poderia dar a aula na sexta-feira. Isto num tempo em que os telemóveis e os incontáveis instrumentos de comunicação dos dias de hoje eram, ainda, ficção científica.

JBM não nos deixou nenhum texto central no que diz respeito às problemáticas da história da cultura como nos deixou no que se refere à história económica, um dos seus temas de eleição. Apesar disso, a sua obra vastíssima oferece-nos um conjunto de ensaios que iluminam e apresentam novas perspectivas no estudo histórico dos fenómenos culturais portugueses. Realcemos algumas das dimensões que JBM trouxe neste campo da História.

Uma das dimensões essenciais do seu pensamento prende-se com a metodologia. A recusa das generalizações e a necessidade de buscar o concreto, numa dialéctica entre o concreto, entre o particular efectivamente vivido na e pelas sociedades, e o geral, é uma das características que encontramos nos textos que nos deixou sobre esta temática. Uma ideia que assume o seu papel de trave-mestra do ponto de vista da metodologia de investigação e do questionário que a sua obra fará de diversos temas da História de Portugal.

Buscar, no debate efetivamente vivido na sociedade, quando confrontada com as propostas que lhe chegavam da Europa, as respostas que a sociedade e a cultura portuguesa encontravam para estas solicitações, é uma das linhas de pesquisa mais interessantes que encontramos nos textos de JBM.

Um dos aspetos que gostaríamos de realçar prende-se com o papel justificativo da independência nacional desempenhado pela matriz cultural, nas suas múltiplas expressões plásticas, literárias ou ensaísticas. Ao mostrar a existência de um núcleo peninsular dotado de mecanismos de construção cultural próprios e que o distinguiam do resto da Península, a cultura portuguesa, na multiplicidade de obras e autores, contribui para o desenvolvimento dessa especificidade portuguesa, e, na sua visão, para a independência nacional.

Mas "cultura portuguesa", no dizer de JBM, não se esgota, nem assume uma dimensão particularista. Pelo contrário, participa e contribuiu para a dimensão cultural que a Europa possui. Desde logo, pela sua abertura aos contributos intelectuais, artísticos e outros que nos chegam do centro e que, por via das características da sociedade portuguesa, permitem um debate e uma apropriação especifica, onde jogam um papel importante a capacidade de recuo e de reflexão mostrada pelas elites intelectuais do país.

Ao lado desta capacidade de recuo e de debate sobre as propostas culturais que chegam à sociedade portuguesa, existe uma contribuição própria para o acervo cultural europeu, com particular destaque para os Descobrimentos.

Na visão de JBM, cabe aos portugueses trazer para o debate a "dignidade" do real. Tornar a realidade objecto com dignidade suficiente para ser sujeito de reflexão, será um dos contributos mais relevantes da cultura nacional para o pensamento europeu. Outras culturas, a partir deste ponto, dariam o passo seguinte: a "matematização" desse mesmo real, agora dignificado pela experiência, quantas vezes de sobrevivência, dos navegadores portugueses.

Outros temas estão presentes na obra que JBM dedicou a este campo historiográfico. Entre muitos outros, destacamos dois textos que consideramos fundamentais, quer pela novidade que trazem no tempo em que são produzidos, quer pelas potencialidades e pelas vias de investigação e pesquisa que propõem e que foram seguidas pela historiografia portuguesa. Referimo-nos a dois textos que devem ser lidos em paralelo: Estrangeirados. Um conceito a rever e o artigo Vias de Expressão da Cultura Portuguesa no século XVIII, apontam para a necessidade de olhar para as condições concretas da cultura portuguesa no que diz respeito à noção, mais política, que propriamente científica, que fazia do Portugal do século XVIII um deserto cultural, onde as elites culturais portuguesas se encontravam afastadas do que o pensamento europeu produzia. JBM demonstra que tal posição, em face da realidade concreta da sociedade portuguesa da altura, não era sustentável: as elites existiam, conheciam os textos e as obras que se produziam na Europa culta do tempo e aproveitavam desse conjunto o que interessava à cultura portuguesa. Os estrangeirados, ou as reformas de Pombal não nasciam, desta forma, num deserto cultural, dominado pela Inquisição e por uma mentalidade retrógrada que recusava o Iluminismo. Os homens da Ilustração portuguesa existiam e acompanhavam os debates do seu tempo. Uma posição inovadora e que contrariava o que a historiografia tradicional afirmava, numa generalização, mais político-ideológica que assente no contexto real da sociedade portuguesa. A historiografia portuguesa pode, assim, trazer para o debate personagens, ideias e práticas pouco conhecidas, soterradas que estavam no combate ideológico em que este tema era uma das armas utilizadas.

Outros temas são tratados por JBM. Por exemplo: o recuperar da figura de Rebelo da Silva, um dos primeiros historiadores a apresentar uma visão global da História de Portugal, onde os factores económicos não eram descurados. Pela primeira vez, o século XVII português era visto a uma outra luz, afastando as teses decadentistas que se tinham tornado a visão "oficial" deste período.

Alexandre Herculano é igualmente objecto de um luminoso ensaio. Neste, o grande historiador do século XIX português é apresentado não como um derrotado, o homem que se retira para o exílio interno de Vale de Lobos, mas como um exemplo de luta e da transformação da historiografia portuguesa num objecto científico, ao invés de uma arma de luta política.

JBM trata também outros temas, num trabalho intelectual intenso e que passa pelo estudo d"Os Lusíadas, pelo papel de Camões no imaginário político e cultural do século XIX, entre tantos outros.

Em suma: estamos perante uma visão da cultura portuguesa onde a ideia central é a sua capacidade de selecionar, a partir dos debates contemporâneos, que não passavam ao lado das elites intelectuais portuguesas, o que se podia combinar com a tradição cultural existente no país. Nesta capacidade de resistência à uniformização reside a faceta mais importante e mais responsável da cultura portuguesa. A sua especificidade assume um carácter mais importante do que à primeira vista seríamos tentados a pensar: no fundo, ela é uma componente central da independência política do país. Aquilo a que o nosso historiador chamou a diferencialidade portuguesa.

JBM é um dos grandes historiadores do século XX português. Com um percurso político da "esquerda" para a "direita", mais preocupado com encontrar as "continuidades" do que as ruturas, marcou as sucessivas gerações de alunos no seu magistério universitário. No centenário do seu nascimento, a melhor homenagem que lhe podemos fazer é ler a sua obra. E discuti-la.

Raul Rasga é professor e antigo aluno de Jorge Borges de Macedo na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Segundo de uma série de artigos publicados no âmbito do centenário de Jorge Borges de Macedo (1921-2021).

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