Internamentos - a chave para detetar "Sporting"

No tempo em que os testes covid eram um monopólio dos laboratórios, qualquer positivo contava para as estatísticas. Só que as circunstâncias mudaram. Até o Presidente Marcelo estima "duas a três semanas" para medirmos as consequências. Já não é exatamente assim. Um adepto do Sporting vai fazer um teste sem sintomas? E se os tiver, liga para o SNS 24 ou compra o teste na farmácia e fá-lo em casa? É que, se estiver positivo, ninguém sabe e talvez não fique 14 dias confinado. Além de que não tem de dar aos rastreadores os nomes de familiares ou amigos com quem contactou, sequestrando-os. Resultado: não é pelos casos diários que vamos medir o "Sporting".

O governo e a Câmara de Lisboa não só falharam clamorosamente num evento pré-anunciado, como não reagiram nos dias seguintes. Porque há algo que se pode fazer. Seria de supor que, a partir desta segunda-feira, fossem desencadeados rastreios em massa nas escolas e universidades da Área Metropolitana de Lisboa (AML); testes para amostragens em diversas freguesias e concelhos (AML), e ações massivas de rastreio voluntário em estações de metro e comboios.

Estamos perante um potencial desastre de saúde pública. Aconteceu tudo o que nos pediram para não fazermos desde o início da pandemia e precisamos de atuar para não gerar de forma invisível um tsunami daqui a dois ou três meses. Nessa altura, esquecido o Sporting, a culpa será dos turistas ingleses... ou dos eventos ao ar livre... ou dos restaurantes... ou da praia. Os do costume levam com um "Natal" pela segunda vez e fecham.

Face a terça-feira, a nossa atenção deve recair num fator: os internamentos. Se os números nos hospitais começarem a ser superiores ao rácio habitual de casos, então... é o "Sporting". Quando as pessoas ficam mesmo doentes, não têm hipótese de "esconder" a covid e recorrem ao SNS. Já vacinámos muita gente até aos 70 anos, mas há outras faixas etárias ainda suscetíveis de doença grave ou até morte.

Há ainda outras consequências quanto à confiança na informação que recebemos. O médico de saúde pública Bernardo Gomes, por exemplo, dizia em direto na TVI, e perante uma multidão sem distância, que o ar livre minimiza o risco. Claro! É o que todos achávamos! Só que foram os médicos de saúde pública que ajudaram à missa da Direção-Geral da Saúde sobre a proibição dos idosos de se sentarem num banco de jardim, de qualquer cidadão caminhar junto ao mar mesmo com máscara, de se poder fazer surf ou de se brincar com as crianças ao ar livre! Aliás, o governo insiste nas multas para quem não garantir distância na praia, o local onde o sol e o vento mais atenuam a transmissão do vírus!

Sabia-se que os sportinguistas viriam para a rua, era inevitável. Mas... um ecrã gigante junto ao estádio? Um autocarro pela cidade, com horas de espera, culminando na ida ao Marquês, onde se concentrariam milhares de pessoas a noite toda...? O que terá levado o médico Frederico Varandas a esquecer tudo o que sabe e disse sobre a covid?

Das duas, uma: ou o Sporting provou que a transmissão ao ar livre não existe, ou o turismo e o verão foram postos em causa a 11 de maio. Infelizmente, tal como no Natal, não restam dúvidas de que o governo não arbitra nem previne, tornando reféns os que ficam sem trabalho e empresas à espera de melhores números covid. Esperemos não ter perdido outra vez o controlo da pandemia. Sem dúvida que perdemos o respeito a quem manda.

Jornalista

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