Inteligência emocional precisa-se neste regresso às aulas

Inicia-se um novo letivo e tal como o ano passado, as máscaras fazem parte do kit escola. Os livros voltam a pesar nas mochilas e as dúvidas acerca das próximas semanas também. Rasgos da dita antiga normalidade alternam com evidências dos tempos da atual pandemia, construindo uma realidade híbrida, repleta de tradição e novidade.

Enquanto Psicóloga Clínica preocupa-me menos os capítulos de história e de matemática que ficaram por dar o ano passado e inquieta-me mais a falta de preparação emocional que crianças e adultos continuam a ter. Pede-se resiliência aos professores e capacidade de adaptação aos mais novos. Pede-se flexibilidade aos auxiliares e tolerância às famílias. E onde se aprende tudo isso?

Cada família, cada turma e cada escola vivenciaram o último ano e meio pandémico de uma forma particular. Necessidades variadas surgiram, muitas delas ainda por responder. Alterações de comportamento que se normalizam à força pela fase de desenvolvimento, desatenção e dificuldades de aprendizagem que se rotulam de "gerais", falta de competências sociais que se ignora, quebra de laços entre crianças e adultos que se julga ser reversível e horas imensas de ecrã que se julgam inevitáveis.
A pandemia Covid-19 parece ter deixado (ainda mais) a descoberto outra pandemia: a da iliteracia emocional. Miúdos e graúdos acumulam certificados mas nenhum deles se refere a competências emocionais e a treino de atenção plena. E isso explica a reatividade, a agressividade latente, a desmotivação e a falta de sentido crítico.

Deixamos os mais novos à porta da escola à hora que nos dizem, com o Kit que nos dizem. A pandemia veio criar um muro maior entre famílias e escola, tornando estes espaços uma espécie de depositários de jovens. "É o que é. Tem de ser. É pela segurança de todos." Não, não é.

O erro é inerente à experiência humana. Errar constitui uma oportunidade de aprendizagem, pelo que o verdadeiro erro é a persistência do mesmo erro. E neste arranque de ano letivo estão a repetir-se erros.
É fundamental, por isso, que nos próximos meses se reclame o nosso poder de fazer diferente. Todos: professores, auxiliares, famílias, crianças e jovens, profissionais de saúde, comunidade. É urgente ensinar-se a nomear, legitimar e regular emoções. É importante criar-se espaços de comunicação eficaz entre crianças, famílias e escola. É determinante levar práticas de meditação mindfulness e de inteligência emocional para o programa curricular.

Há também que resgatar o papel para as rotinas diárias dos mais novos. Os equipamentos eletrónicos podem ser úteis e didáticos, mas com um uso consciente e monitorizado pelos adultos. Nada substitui a experiência de segurar num lápis ou caneta, treinar a motricidade fina e sentir o papel. Nada se equipara a histórias contadas em livros impressos, a teatrinhos de fantoches feitos em cartolina. Ler, escrever e desenhar em papel estimula os sentidos e aumenta os níveis de concentração e criatividade. Crianças e adultos podem fortalecer os seus laços em torno de atividades em papel, que potenciam o foco e maior envolvimento de todos.

Neste novo ano letivo, pergunte mais vezes: como é que te sentiste hoje? Abra espaço a todas as emoções e dê o exemplo enquanto adulto, sendo mais gentil consigo mesmo.

Psicóloga Clínica, Coach e Autora (www.transformar.pt)

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