Guerra, pandemia e transições gémeas

É dos livros. De história. Abalos, disrupções, descontinuidades, chamem-lhe o que quiserem, sempre empurraram a Humanidade para estádios mais avançados da sua existência. De caminho, provaram que a transição impossível era, afinal e quase sempre, possível. Foi também assim com a covid-19 e assim será com a invasão da Ucrânia pela Rússia.

A crise pandémica surpreendeu-nos com os confinamentos. Uma realidade que os mortais que cá andavam nunca tinham experimentado. Era preciso pôr as pessoas a trabalhar a partir de casa. E a consumir também. Toda uma reengenharia da vida, para a qual pensávamos não estar preparados. A McKinsey & Company entrevistou executivos de empresas de todo o mundo para saber qual o tempo que estimavam necessário para esta mudança. Para tornar possível o trabalho remoto, responderam que a transição demoraria, antes da covid, 454 dias, mas que logo no primeiro confinamento conseguiram fazê-lo em 11 dias, o que dá um fator de aceleração de 43 vezes. Para um aumento substancial das compras online por parte dos seus clientes, estimavam, antes da covid, um período de 585 dias, mas afinal aconteceu em apenas 22 dias, ou seja, 27 vezes mais rápido.

Afinal, o impossível foi possível. Ou, se preferirem, o difícil foi fácil. A primeira das transições gémeas já rola a bom ritmo, no terreno e na cabeça das pessoas. Da mesma forma que a pandemia da covid acelerou supersonicamente a transição digital, a guerra na Ucrânia vai acelerar decisivamente a transição energética. A segunda das gémeas, a que às vezes damos a alcunha de climática.

Quando Putin, o aspirante a czar, resolveu partir a loiça e meter-se com a Ucrânia, terá começado a cavar a sepultura do negócio da energia, aquele que é hoje, em simultâneo, o abono de família do seu país e o euromilhões dos oligarcas seus amigos. Em 2014, aquando da anexação da Crimeia, Angela Merkel disse que Putin era um líder do século XIX a agir no século XXI. Referia-se à invasão de nações soberanas, mas eu estico o argumento ao tema da energia. A Rússia é um portento dos combustíveis do século XIX, todos fósseis, como o petróleo, o gás e o carvão. Acontece que essas não são as formas de energia do futuro, pelo que a crença na dependência europeia da mãe Rússia é um erro de principiante. O pequeno tirano acaba de nos empurrar, inexoravelmente, para os braços da transição energética.

O que está em jogo não é coisa pouca. Em números redondos, na Europa, 45% do gás natural consumido, 45% das importações de carvão e 25% das importações de petróleo provêm da Rússia. Por outro lado, a Lei Europeia do Clima e a estratégia Fit for 55 fixam, já para 2030, a meta da redução das emissões de CO2 em 55%. Está bom de ver que, para reduzir o carbono, há que reduzir a queima de fósseis e que a primeira vítima vai ser a Rússia, uma vez que à dimensão climática se sobrepôs a dimensão geopolítica e de segurança energética.

Para já, a Comissão Europeia responde com o REPowerEU. Vai avançar com a importação de gás natural liquefeito de outras origens, mas o que vai mesmo acelerar a transição é a produção e importação de hidrogénio verde e de biometano renovável, a instalação de painéis fotovoltaicos nos telhados europeus, a adoção em escala das bombas de calor e a expansão do eólico offshore. Acompanhadas das infraestruturas de distribuição e armazenamento.

Obrigado, Vladimir, pelo impulso. Agora sabemos o que fazer. E quem sai a perder.


Professor catedrático

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