"Grande Rússia", storytelling e cleptocracia siloviki

"O colapso da União Soviética
foi o maior desastre geopolítico do século."

(Putin)

Nos anos que se seguiram ao termo da União Soviética, em 1991, o PIB da Rússia caiu praticamente todos os anos até 2000. Na Rússia pós-URSS a transição para uma economia de mercado através da liberalização económica produziu uma inflação galopante, a falência de milhares de PME, um aumento da taxa de desemprego e em salários atrasados, tendo provocado um empobrecimento geral da população. A criminalidade também aumentou a par com a instabilidade social. Gradualmente, a liberalização dos preços ajudou o governo a resolver o problema da escassez de bens de consumo geral e muitas empresas ocidentais instalaram-se nas principais cidades russas. As políticas de privatização de relevantes ativos estatais criaram uma nova classe de homens-fortes; agora não por via da pertença ao partido, mas por serem oligarcas novos-ricos, em função dessas privatizações e da promiscuidade e corrupção subjacentes aos processos de privatização. Estes oligarcas, feitos bilionários da noite para o dia graças a benesses do governo russo, rapidamente se transformaram em siloviki do líder no Kremlin, dele esperando proteção e segurança. Para os que não respeitaram esta relação simbiótica e a primazia do líder político, o processo penal de M. Khodorkovski serviu de exemplo.

A Rússia de Putin é uma cleptocracia sem ideologia, nem propósito grandioso, encabeçada por um líder ao estilo fascista, que almeja apenas manter o poder político para garantir a manutenção da fabulosa riqueza.

A partir de 2000, a reconstrução económica da Rússia sob a liderança de Putin assentou na exploração de matérias-primas - petróleo, gás, carvão, ouro, cobre, níquel - commodities internacionais e no domínio agrícola. Para além disso, manteve-se a base industrial existente, sobretudo nos domínios da energia, militar e da aeronáutica e aeroespacial. Apesar do potencial do país para desenvolver novas indústrias e novas áreas de negócio com base na inovação e na I&D, a superestrutura económica montada, assente em siloviki leais, mas pouco virados para novas áreas de negócio incerto, conduziu a uma economia de país em desenvolvimento com um PIB per capita inferior ao da Malásia. A natureza oportunística e predatória desses siloviki levou a uma cada vez maior canalização de capital russo para o exterior, em detrimento do desenvolvimento do potencial da economia russa. Foi ficando cada vez mais claro que a aliança entre o poder político de Putin e seus camaradas dos serviços de segurança do Estado e os oligarcas não tinha qualquer propósito que não o da manutenção do poder político e económico alcançado. O descontentamento popular daí decorrente levou o regime de Putin a diminuir gradualmente a esfera de Direitos Fundamentais, evoluindo gradualmente para uma democracia musculada e, posteriormente, para uma ditadura.

Acossado pela evidência de um poder que seguia nu, o líder da clique no poder criou a teoria da finalidade da recriação da Grande Rússia. Encaixa com o passado histórico, articula com a narrativa da Igreja Ortodoxa Russa e cala fundo nos ultranacionalistas órfãos da defunta União Soviética. Mas é apenas storytelling... a Rússia de Putin é uma cleptocracia sem ideologia, nem propósito grandioso, encabeçada por um líder ao estilo fascista, que almeja apenas manter o poder político para garantir a manutenção da fabulosa riqueza que acumulou com a pilhagem do seu país.

Consultor financeiro e business developer
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