Geração de ouro

Reflectindo sobre a existência humana, tenho vindo a perguntar a mim próprio se era preferível nascer no século vinte e um, ou pouco antes dos meados do século passado.

Depois de pensar e repensar cheguei à conclusão que fui um privilegiado por ter nascido quando e onde nasci.

Reconheço que fui bafejado pela sorte, pois foi graças a uma extraordinária cadeia de bem-sucedidos acontecimentos biológicos, desencadeados desde a aurora dos tempos, que pude abrir os olhos e começar a ver o mundo numa terra asiática chamada Goa.

Reportando-me ao mundo, não em geral mas apenas ao português, em vez de dizer que, por contingências singulares da vida, cedo abandonei a terra do nascimento, prefiro afirmar que tive a felicidade de poder escolher entre permanecer na terra onde nasci, ou aventurar-me em busca da descoberta do desconhecido.

Feita a escolha, percorrendo milhares de quilómetros e estando a viver em Lisboa, coração do mundo lusitano, depressa tive que participar na luta desencadeada pelos herdeiros do império, defensores de soluções variadas quanto ao seu futuro, das quais se destacavam duas diametralmente opostas: uma favorável à libertação integral dos territórios ocupados, por considerarem terem sido conquistados de forma indevida e pertencerem aos descendentes das populações originais, enquanto outra, partidária da política governamental, considerava aqueles territórios como parte integrante de Portugal.

Pouco conhecedor dos intrincados meandros da política, levei tempo para me aperceber que entre os próprios metropolitanos, não existia unanimidade em relação a essa questão pois, para além dos apoiantes do regime, havia quem o combatesse na clandestinidade, enquanto outros, inconformados com a situação e sem esperança no futuro, emigravam à procura de melhores condições de vida.

Desse conflito incessante desencadeado entre diversos protagonistas em jogo, tantas vezes banhado de lágrimas e tingido do sangue de inocentes, mesmo que se façam milhares de análises, promovam tertúlias, conferências e seminários e se publiquem centenas de livros, nunca se conseguirá escrever a versão fiel do passado distante, porquanto haverá sempre alguém que levará consigo, para a tumba, informações e conhecimentos imprescindíveis para se saber a verdade incontroversa e integral dos factos.

Estando eu a viver nesse mundo povoado de atribulações, dúvidas e incertezas, após pouco mais de uma dúzia de anos de avanços e retrocessos em busca de soluções, vi chegar uma onda gigante e varrer todo o território nacional, do Minho a Timor, arriando as bandeiras portuguesas que por lá flutuavam e deixando-as apenas hasteadas na mais ocidental costa europeia.

Todavia, das sementes que por lá foram plantadas pelos antigos possuidores, nem sempre regadas convenientemente, umas murcharam e pereceram para sempre, enquanto outras medraram e deram preciosos frutos, que podem ser multiplicados e enriquecer o mundo inteiro, desde que deixemos de carpir as mágoas e sejamos capazes de olhar para as vantagens que trazem para o futuro, em vez de desperdiçarmos energias tentando descobrir e apagar os vestígios e os símbolos negativos do passado.

Apesar dos numerosos erros por nós cometidos, de que não nos orgulhamos, podemos afirmar que, de todas as marcas identitárias mais relevantes, deixadas na argamassa dos territórios lusitanos de outrora, pelo menos duas poderão ficar para a posteridade: a lusofonia e a portugalidade.

Nasci no tempo daqueles portugueses que não sabiam o que era telemóvel e muito menos internet, quando me comparo com a juventude actual, verifico que estou demasiadamente atrasado, contudo sinto-me orgulhoso por fazer parte daqueles participantes que conquistaram e cultivam a liberdade, algo que os mais jovens jamais conseguirão imaginar quanto custou a ganhar.

Sinto-me feliz por ser fruto de uma geração de ouro que, por ter tido o privilégio de nascer no mundo em convulsão e cheio de contradições, tem numerosas histórias para contar. Foi iluminada por uma luz sideral, que já não existe mas foi a mais brilhante estrela de todo o firmamento.

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