Generosidade

Num desses inquéritos curtos e já mais que uma vez na vida me perguntaram qual a característica humana, a virtude que mais aprecio. A minha resposta tem sido a generosidade.

Porquê, perguntam-me?

Porque se quiseres alguém numa equipa e que se dê à equipa, procura nessa pessoa o grau de generosidade. O que alguém está disposto a fazer para prescindir do que é seu em favor do bem coletivo.

Porque se quiseres trabalhar com alguém mais próximo, pois procura essa generosidade e na bilateralidade, no dar e receber, hás-de encontrar uma coisa difícil de obter: entrosamento sem grande necessidade de estrelato. O trabalho de grupo, a capacidade de abnegação, a capacidade de deixar ficar o que é seu para outros.

Porque se quiseres alguém que seja menos rotativo, e porque sei que pensas em retenção, hás-de encontrar na generosidade a pessoa que está mais empenhada e ao dar se sente mais alegre por dar.

A alegria do dar, a alegria da generosidade, é muito um momento de felicidade. Dás porque queres ver alguém bem. Dás porque queres sentir-te melhor, tanto quanto possível bem também.

Perguntam-me depois como sabemos que alguém é generoso.

Nem sempre é fácil de perceber, mas pode sempre tentar-se.

Quanto é preciso ficar mais um bocadinho para acabar uma venda ou para concluir uma atividade pois aí tens alguém que é generoso em tempo.

Quando é preciso trabalhar a um fim de semana e quando percebes que alguém prescinde do que é seu para o dar aos outros e ao bem comum, percebes se há generosidade.

Quando é preciso oferecer um almoço aos colegas, a pessoa que se chega à frente e oferece é normalmente mais generosa.

Quando é preciso fazer um trabalho que ninguém quer fazer e essa pessoa o toma como seu, pois podes considerar esse alguém como generoso.

Em meu entender, a pessoa generosa não é necessariamente a mais humilde, não deixa necessariamente de barafustar, não deixa de questionar e de procurar algum sentido de justiça. Mas, no fim, reclame ou não, faz e entrega-se. Dá o que é seu em prol da organização. Em prol dos outros.

Portanto, não são os bonzinhos e os que apelam ao trabalho de equipa e aos quesitos da felicidade os mais generosos. São os que se abnegam de si mesmos para pensar um pouco nos outros e na organização. Na prática. Não na teoria.

Perguntam-me ainda porque no meio de tantas virtudes aprecio a generosidade em particular? Porque penso que a generosidade é uma característica que engloba muitas outras. O sentido de grupo, o dar-se, o ser capaz de reconhecer que não esteve bem, a tentativa de emenda e a emenda, o ser capaz de pedir desculpa vêm de alguém generoso. A generosidade abarca muitas outras características. Muitas outras dimensões. Por isso, na hora da escolha de alguém para a minha equipa eu diria que aquele que é mais generoso é quem eu vou querer. Não é necessariamente o mais inteligente, o mais perspicaz, o mais trabalhador. Porque pode ser isto tudo mas não o fazer com o sentido do coletivo como pano de fundo.

Por isso, se estivesse nos recursos humanos, e mesmo não estando, o que mais valorizo e o que mais estou disposto a pagar é pela virtude da generosidade. Porque fica sempre um pouco de perfume nas mãos de quem oferece flores (desconheço a origem).

Presidente do Iscte Executive Education

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