Estratégia de combate à pandemia tem de mudar

Chegámos a um ponto em que é muito difícil confiar na informação que nos é fornecida pelas autoridades em Portugal, quando a fornecem, porque muitas vezes nem às perguntas dos jornalistas respondem. Melhor confiar no que nos dizem os ingleses, eles não nos escondem o que temos o direito de saber. Os de cá, desde a festa do título em Lisboa que nos mentem. É tudo fogo-de-vista e fuga à responsabilidade.

Já aqui tinha chamado a atenção, na semana passada, sobre a razão que assistia aos ingleses quando olharam para o que se passava por cá e mandaram toda a gente regressar a casa. Na resposta, o nosso governo considerou que "a decisão britânica não tinha lógica", sendo que o principal argumento de Londres era a variante Delta que tinha entrado em força no nosso país. "Poucos casos", responderam as autoridades portuguesas. Os ingleses são quem mais estuda as variantes e, ontem, o Financial Times assegurava que a variante Delta já é predominante em Portugal e representa 96% dos novos casos.

Aqui chegados, com uma quarta vaga em curso, convém recordar que apenas 25% da população portuguesa tem a vacinação completa e que uma só dose de vacina, perante a variante Delta, reduz a eficácia para cerca de 30%. Qualquer português saberá dizer que a melhor forma de diminuir os contágios é diminuir os contactos entre as pessoas, mas como a autoridade do Estado se degradou, há cada vez menos gente a evitar contactos desnecessários e cada vez menos a cumprir na íntegra as regras estabelecidas desde o início da pandemia.

Sobra a testagem que raramente é a que necessitamos. No que diz respeito à responsabilidade do Estado, o mínimo que se pode dizer é que é estranho que ela diminua quando o número de novos casos está a diminuir. Mas também se pode dizer que, se a responsabilidade individual já não é o que era quanto às regras sanitárias (uso de máscara, distanciamento social e higienização das mãos), tem de aumentar na testagem e o Estado pode dar um empurrão. Seguir a proposta da Ordem dos Médicos, tornando possível o uso do Certificado Digital Covid internamente, fará que mais gente voluntariamente e de forma periódica faça os necessários testes, porque quem não tiver tomado a vacina ou não for um recuperado da covid só circulará livremente com teste feito e atualizado.

É absolutamente necessário mudar de estratégia, o cansaço pandémico ajudou à perda da autoridade do Estado e as duas coisas juntas estão a matar parte dos ganhos que tínhamos conseguido com a vacinação. Por isso, para lá de mais testagem, temos de empenhar o nosso melhor esforço para aumentar exponencialmente o ritmo de vacinação, para que os ganhos desse processo superem as consequências de termos a mais contagiosa de todas as variantes a tornar-se dominante no nosso país. E, neste ponto, o Presidente tem razão, isto já não se resolve com um confinamento generalizado, o país já não volta atrás. Haja coragem política para tratar de modo diferente o que é diferente.

Jornalista

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