"Eliminemos as armas nucleares antes que elas nos eliminem"

Sabemos há várias décadas que não há forma de a nossa civilização e a maior parte da vida no planeta sobreviver a uma guerra nuclear, ainda que limitada, e ao inverno nuclear dela decorrente. Durante a Guerra Fria, a dissuasão nuclear funcionou através do "equilíbrio do terror". Para tal ser possível, é necessário que todas as potências nucleares mantenham as suas armas sob controlo. Mas existe o risco de erros técnicos, acidentes e falsos alarmes poderem levar à utilização de armas nucleares; uma potência nuclear pode crer, incorretamente, estar a ser atacada: uma bomba nuclear que detona acidentalmente - ou mesmo apenas um falso alarme - pode desencadear uma retaliação nuclear porque vários países mantêm as suas armas nucleares em "lançamento sob aviso". Para que a dissuasão nuclear seja um equilíbrio, todas as partes têm de estar sempre em controlo. O que, no entanto, não sucede; houve várias situações em que se terá estado próximo do risco de utilização de armas nucleares. Existe ainda o risco de uma pessoa assaz irresponsável liderar um país que possui armas nucleares. Bem como o risco de terrorismo nuclear, no caso de uma organização terrorista adquirir tais armas. Além da possibilidade de hackers poderem assumir o controlo da cadeia de comando nuclear.

Para diminuir os riscos subjacentes, foram celebrados acordos internacionais: o Tratado de Não-Proliferação (NPT), o Acordo Estratégico de Redução de Armas (ou START) entre os Estados Unidos e a Rússia, o Tratado de Proibição das Armas Nucleares (TPNW). Embora as Nações Unidas tenham adotado formalmente o TPNW, que entrou em vigor no ano passado com 86 estados signatários, as principais potências nucleares - Rússia, EUA, China, França e Reino Unido (P5) - recusaram-se a apoiar o tratado, argumentando que o NPT, aliado a negociações diretas entre as potências nucleares, representa o caminho mais realista, a longo prazo, para o desarmamento.

A próxima Conferência de Revisão do NPT - a primeira em sete anos -, que decorre este agosto, é uma oportunidade crucial para os P5 e outros estados nucleares mostrarem que levam esta ameaça a sério e continuam empenhados no desarmamento nuclear. Mas as perspetivas em relação a progressos não são famosas. E a relutância dos P5 em reduzirem o seu stocks de ogivas nucleares contribui para que um crescente número de potências emergentes se considerem legitimadas no seu desejo de se tornarem potências nucleares.

O START entre os Estados Unidos e a Rússia deverá expirar em fevereiro de 2026, sendo bem possível que deixe de existir um acordo importante que limite as armas nucleares entre as duas superpotências nucleares tradicionais pela primeira vez em mais de 50 anos. E ainda existem mais de 10.000 ogivas nucleares.

Para que a dissuasão nuclear seja um equilíbrio, todas as partes têm de estar sempre em controlo. O que, no entanto, não sucede; houve várias situações em que se terá estado próximo do risco de utilização de armas nucleares.

Embora haja uma pressão global crescente sobre os líderes mundiais para que tomem medidas relativamente às alterações climáticas, não existe grande pressão relativamente à eliminação ou redução das armas nucleares que representam uma ameaça existencial à vida na Terra igualmente premente. É necessário aumentar essa pressão, como fez o secretário-geral das Nações Unidas, A. Guterres, nos últimos dias: "Eliminemos as armas nucleares antes que elas nos eliminem".

Consultor financeiro e business developer
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