Eleições presidenciais iranianas

Os eleitores iranianos acabam de eleger o oitavo presidente da República Islâmica, desde a revolução de 1979. É Ebrahim Raisi, um radical que não teve concorrentes na recente votação. Os seus adversários sérios nas eleições foram desqualificados antes da votação, assim ele obteve facilmente a maioria dos votos (17,8 milhões em 28). Esta foi a menor afluência (48,8%) na história moderna do Irão e a vitória clara do único candidato que contou com o apoio do líder supremo do país Ali Khamenei (falam dele também como potencial sucessor de Khamenei).

O novo presidente tomará posse dentro de 45 dias e, até então, muitos observadores esperam que as negociações entre a República Islâmica e os EUA em Viena produzam um novo acordo para revitalizar o acordo nuclear de 2015. Se não o fizerem, o novo presidente e provavelmente o novo ministro dos Negócios Estrangeiros não ficarão assim tão ansiosos para o alcançar.

É sabido que o Irão, como um dos maiores países do Médio Oriente, tem de fazer parte de qualquer acordo que tenha por objetivo produzir estabilidade nesta região. Se o Irão ficar de fora, será muito difícil esperar qualquer tipo de normalidade na zona. Essa normalidade foi a ideia central do acordo de 2015, que conseguiu criar certas regras, não perfeitas, mas pelo menos algo que poderia ser visto como o primeiro passo. O governo do ex-presidente norte-americano Donald Trump teve uma ideia diferente sobre o acordo, decidiu retirá-lo em 2018 e não ofereceu nada em substituição a não ser a pressão sobre o Irão na forma de fortes sanções económicas. Como qualquer outro exemplo de sanções, elas são criadas geralmente para atingir a elite governante, que também costuma encontrar uma maneira de evitar a sua influência negativa. Elas devem, portanto, criar problemas para a população em geral, que deve culpar a elite dominante e pressioná-la para que mude a política.

Essa é a teoria. Qual é a realidade? A única política que o regime tem nas mãos é não avançar com reformas, evitando parecer fraco, mas defender a "economia autossuficiente", que basicamente não existe no moderno mundo globalizado. O regime não se torna mais moderado e pronto para fazer acordos, mas sim o contrário. Ele volta a sua atenção para dentro, para a disposição das pessoas, não para os perigos externos, porque fica ciente de que a sua direção pode ser questionada. O resultado final é decididamente negativo para as futuras negociações e potenciais concessões do Irão. A política de sanções de Washington não visava apenas forçar o Irão a um acordo melhor, mas também mostrar aos eleitores do ex-presidente Donald Trump nos Estados Unidos o quão forte ele é na arena internacional. É uma meta de curto prazo, independentemente de se ter uma ideia clara do que fazer depois de amanhã.

Do ponto de vista do atual presidente Joe Biden, haverá um sério dilema: acelerar o processo de negociação e conseguir algo antes da mudança efetiva do presidente iraniano, ou seguir as críticas internacionais ao histórico do novo presidente Raisi quando ele era o juiz supremo do Irão no momento da perseguição aos opositores políticos? A segunda opção influenciaria fortemente as negociações e talvez os levasse à morte e às ruas.

Mas o Irão ficará onde está, no Médio Oriente, a região que nunca deve ser subestimada: pode sempre tornar-se mais complicada a cada dia que passa.

Investigador do ISCTE-IUL e antigo embaixador da Sérvia em Portugal

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