Primavera em Havana

A produção de séries televisivas norte-americanas tem sido pródiga em exercícios premonitórios. Sete anos antes da eleição de Barack Obama já David Palmer, em 24, se apresentava como o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. Em 2006, na genial West Wing - Os Homens do Presidente, a derradeira temporada culmina com a eleição do democrata Matt Santos, um hispânico, para a tarefa de liderar o "mundo livre". E foi precisamente pela pena de Aaron Sorkin que se "ensaiou" a aproximação a Cuba e se "começou" a negociar o fim do embargo. O tempo da administração Bartlet era em quase tudo semelhante ao da administração Obama. Estava-se no último ano de mandato e o presidente fictício, desesperado por deixar marca e legado, enviou secretamente a Cuba o seu homem de confiança para que se encontrasse com Fidel Castro dando início ao desanuviar de relações entre os dois países. No regresso a Washington, Leo McGarry comunica ao presidente que as coisas estão bem encaminhadas para que no futuro o embargo possa ser levantado. Isto passou-se durante dez anos num mundo de ficção. Ontem, e depois do espetáculo planetário que foi a aterragem do Air Force One em Havana na véspera, Barack Obama e Raúl Castro apertaram as mãos e selaram uma nova era nas relações entre Cuba e os Estados Unidos. O presidente americano anteviu o fim do embargo, "só não sei quando", e o presidente cubano sublinhou a importância do momento afirmando que é mais fácil e rápida a destruição de uma ponte do que a sua reconstrução. Na conferência de imprensa conjunta, os dois homens assumiram sem tibiezas aquilo que os afasta. De um lado o respeito pelos direitos humanos e as liberdades individuais, do outro a devolução do território de Guantánamo "ocupado ilegalmente" pelos Estados Unidos. É certo que, como disse Neil Armstrong quando pisou a Lua, este pode ser apenas um pequeno passo. Mas a política tem muito de simbólico. Se há coisa que a história tem demonstrado é que o embargo a Cuba, condenado vezes sem conta pelas Nações Unidas, serviu exatamente o propósito contrário de quem o aplicou há mais de meio século. O restabelecimento de relações comerciais e o investimento estrangeiro em Cuba - a Google anunciou a expansão da banda larga em toda a ilha - podem vir a ser o impulso decisivo para inspirar os cubanos a agirem e a exigirem mudanças. Obama, ao contrário dos seus antecessores, é um pragmático e percebeu que mais do que os Estados Unidos serem agentes de revoluções ingerindo de forma ilegítima na esfera de outros países, devem antes funcionar como facilitadores e encorajadores da transformação. Para que haja sucesso é fundamental que do outro lado da mesa não haja hipocrisias no que toca à existência de presos políticos. Só o futuro dirá se esta primeira visita de um presidente americano a Cuba em quase 90 anos será mais do que um rodapé nos livros de história. Mas o tempo joga claramente a favor de Obama.

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