O que move Catarina

Quem ontem ligou a televisão e assistiu ao primeiro ato do debate quinzenal, o mais difícil que António Costa enfrentou na chefia do governo, talvez tenha tido a sensação de déjà vu parlamentar. Catarina Martins interrogava o primeiro-ministro em tom de tal modo crispado e agressivo que fazia lembrar os tempos em que, a partir da mesma bancada, confrontava Passos Coelho. Assistiu-se a uma inusitada espécie de negociação por causa da solução para o Novo Banco e da ideia de criação de um veículo que permita limpar os balanços das instituições bancárias. As diferenças ficaram bem vincadas: Catarina só admite intervenções em bancos nacionalizados e António tem muitas dúvidas de que essa seja a melhor das soluções. Não é a primeira vez que a líder do Bloco de Esquerda exibe autonomia e liberdade de crítica nos debates quinzenais com o governo que suporta, mas a forma e o conteúdo escolhidos ontem por Catarina Martins induziam qualquer espectador a pensar que o Bloco tinha acabado de meter os papéis para a separação (não escrevo divórcio porque não há casamento). Na fase em que estamos - quatro meses de unidos de facto não é tempo para pensar em ruturas definitivas - talvez não tenha passado de um arrufo ou até de uma prova de vida da porta-voz do Bloco. Catarina Martins já percebeu que a margem negocial do governo com Bruxelas é estreita e que, fruto de fatores externos e do arrefecimento da economia europeia - na verdade nunca chegou a aquecer -, algumas políticas fiscais e sociais terão de ser adiadas para que as metas orçamentais não fiquem em causa. Mais para dentro do que para fora, Catarina Martins tem de afirmar distanciamento do governo e impor linhas vermelhas, para assegurar a sobrevivência como líder. Por outro lado, a tese de que a chamada "geringonça" haveria de implodir às mãos do PC e do BE parecia ser contrariada nesta semana pelas demissões e tensões dentro do executivo. O PS sozinho é capaz de dar cabo do governo sem precisar de ajuda. E esta é, talvez, a maior ameaça ao poder do Bloco. Se os socialistas são o veneno e o antídoto do governo, se António Costa escusa de olhar por cima do ombro porque é em casa que tem a ameaça maior, pouco mais resta ao Bloco do que a condenação ao estatuto de bengala do PS.

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