O acordo. Qual acordo?

António Costa, concorde-se ou não com ele, nunca escondeu ao que vinha quando se candidatou a secretário-geral do PS. Disse-o com as letras todas desde o primeiro minuto. E se falhou no essencial - perdeu as eleições depois de apear António José Seguro da liderança porque as vitórias alcançadas eram "poucochinhas" - não deixou de cumprir no resto: que acabaria com o mito de que o arco da governação é clube restrito de três partidos, que não viabilizaria um governo minoritário da direita, tampouco um orçamento subscrito por PSD e CDS. Só por desatenção ou ignorância é que alguém poderia imaginar que Costa, ainda para mais depois de derrotado nas urnas, desperdiçaria a oportunidade de tentar "derrubar o muro" que há 40 anos impede o diálogo do PS com os partidos à sua esquerda, e assim procurar uma alternativa à maioria que a 4 de outubro passou a minoria. Dito isto, faz pouco sentido insistir na tentativa psicanalítica de interpretar o que pretendiam os eleitores que votaram no PS. Aqui chegados, porém, importa registar que passou um mês e que do acordo das esquerdas conhecemos apenas intenções e desejos - mais empolgados, é certo, do lado do Bloco e mais "acordo-céticas" do lado do PCP. Para ultrapassar o aparente impasse em que nos encontramos - como metáfora do acordo só me ocorre a rábula do papel celebrizada pelos Gato Fedorento - começa a fazer caminho a tese de que pode haver não um acordo mas dois ou três, se incluirmos o PEV. Isto é, o PS entende-se bilateralmente com comunistas e bloquistas sem que os três se sentem à mesa e assumam o casamento, a união de facto ou lá o que lhe queiram chamar. A solução que se desenha tem de ser pública, não por uma questão de legitimidade, que não está em causa nem pode ser questionada, mas de transparência; o acordo, necessariamente mínimo e sobre políticas concretas, tem de ser um e apenas um porque só assim se assegura a solidez, a durabilidade e a fiabilidade do compromisso. O grande teste será, sem dúvida, saber se existe uma ou três moções de rejeição. É que se não se entenderem num texto comum de razões para fazer cair o governo da PAF, como é que vão entender-se para viabilizar outro liderado pelo PS?

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