Parar, olhar, desenhar

O pintor Rolando Sá Nogueira [1921-2002] passou metade da vida a ensinar alunos a desenhar e dizia que todas as pessoas podem aprender. Que desenhar é uma capacidade que se adquire treinando e conhecendo regras, como acontece com qualquer técnica, e não depende de um talento inato. Hoje é o Dia do Desenhador, celebrando 564 anos desde o nascimento de Leonardo da Vinci, e o DN quis assinalá-lo com a ajuda de alguns ativos urban sketchers, homens e mulheres de profissões variadas e com este prazer em comum: desenhar. Dir-se-ia, à primeira vista, que é mais um dia internacional, hoje uma ideia banalizada - ainda agora passou o Dia do Beijo (13 de abril), já aí vem o do sorriso (28 de abril), depois o do whisky (21 de maio) e, felizmente, o da preguiça (15 de outubro). Mas o desenho é outra coisa. Podemos maravilhar-nos com a inteligência e a beleza do traço do genial Da Vinci ou com os esboços de arquitetura de Álvaro Siza Vieira, que faz uns riscos e cria uma nova realidade, para só citar dois extraordinários inventores. Podemos deliciar-nos com os cadernos de viagens de Daciano da Costa, André Carrilho ou António Jorge Gonçalves. Podemos achar-nos tristemente incapazes de chegar aos calcanhares deles e de muitos outros grandes criadores. Mas sem dúvida que desenhar é um dos primeiros gestos humanos, possível com qualquer pauzinho sobre a areia, com um aparo molhado em tinta sobre um papel. É um impulso antiquíssimo, como se as mãos humanas soubessem estender-se para traduzir o pensamento. Um traço ou um círculo toscamente desenhados podem ser aperfeiçoados se não desistirmos de tentar, falhar e voltar a tentar, e soubermos salvaguardar na correria da vida a paciência de parar para olhar. E aí está o essencial, como dizia Sá Nogueira e, cem anos antes dele, o inglês John Ruskin: "Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar."

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