O isolamento de Passos Coelho

Pedro Passos Coelho é hoje um homem isolado. Além de - já é um cliché - incapaz de aceitar que não é primeiro-ministro no exílio, expôs-se ao remoque público do Presidente da República. Ontem, na cerimónia formal de apresentação de cumprimentos do governo ao novo Chefe do Estado, Marcelo Rebelo de Sousa não hesitou em apoiar António Costa no que respeita à preocupação e à intervenção pública para garantir a estabilidade do sistema financeiro. Não sendo surpreendente que o Presidente da República e o primeiro-ministro em início de coabitação façam juras de lealdade e cooperação institucional, é politicamente significativo que o mote para o fazerem tenha sido este. A propósito de uma reunião entre António Costa e Isabel dos Santos sobre o BCP e da chamada espanholização da banca nacional, o presidente do PSD tinha exigido "esclarecimento transparente" sobre a interferência do governo nos negócios do sistema financeiro. Faça-se justiça a Passos Coelho pela sua coerência. Afinal foi, não só mas também, por preferir assobiar para o lado e esconder-se atrás do biombo em que se transformou o Banco de Portugal que dois bancos deixaram de existir. Mas na verdade as palavras do Presidente da República não são mais do que um gesto de cobertura ao governo e um tirar de tapete ao presidente do PSD - uma resposta em jeito de repreensão na medida em que Marcelo Rebelo de Sousa enquadra a intervenção pública na banca nos limites constitucionais e da defesa do Estado de direito que, pelas opções tomadas em nome do programa de ajustamento, tantas vezes foram ultrapassados e desprezados por Pedro Passos Coelho. Aqui chegados, verificamos que o líder do maior partido da oposição está sozinho porque nem os seus o entendem ou compreendem. Nuno Morais Sarmento, numa entrevista que hoje é transmitida pela rádio Antena 1, sublinha que a defesa do interesse nacional justifica a intervenção de António Costa e que as dúvidas de Passos Coelho só podem ser explicadas por má consciência em relação ao que se passou com o Banif. Dito isto, importa, passe o atrevimento, lembrar um ponto ao Presidente da República. Compete-lhe, entre outras atribuições, fazer tudo para assegurar a estabilidade política. Mas isso, como muito bem vincou ontem, não se faz passando cheques em branco ao primeiro-ministro. E se um Presidente não pode ter preconceitos em relação a qualquer governo, o mesmo se passa relativamente à oposição. Até porque, Marcelo sabe-o melhor do que ninguém, mais tarde ou mais cedo vai ser preciso que o governo do PS de António Costa converse com o PSD de Passos Coelho. E para isso vai ser necessária a intermediação do Presidente da República. Convém por isso que as pontes de diálogo não estejam quebradas a partir da Presidência. A menos que Marcelo esteja empenhado em fazer o papel de Eanes e, a partir de Belém, queira tutelar a renovação do PSD. Talvez seja má ideia. Até porque se há provas que Passos Coelho já deu são de que sabe resistir e sabe esperar.

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