O erro de Passos

Nas perguntas que Pedro Passos Coelho fez no sábado ao primeiro-ministro há uma palavra a mais, aliás, um nome: José Sócrates. É legítimo que o líder da oposição se preocupe com aquilo que suspeita ser intervencionismo público excessivo em negócios privados. A bandeira portuguesa já serviu para muitos negócios ruinosos. A famosa tese dos campeões nacionais já deu lucros inconcebíveis a empresários que depressa meteram o hino na gaveta para liquidar as suas posições à primeira oportunidade. Tudo isso é verdade, tudo isso faz parte da nossa história contemporânea. Seria por isso absurdo rejeitar as dúvidas que Passos Coelho ontem voltou a reafirmar. A discussão é, além disso, interessante e pode ser frutuosa: quais os limites da intervenção pública, de que forma e com que transparência ou reserva devem ser conduzidas algumas operações, qual o papel de um governo no meio de um sistema financeiro que tantas vezes dita as próprias regras e depois passa a fatura aos contribuintes? O líder da oposição fez bem em mostrar-se preocupado com o assunto, mas a referência a José Sócrates inquina o debate por causa das circunstâncias em que o antigo primeiro-ministro se encontra - suspeito de crimes graves - e reduz à partida as possibilidades de haver uma discussão razoável sobre o que está sobre a mesa. Era desnecessário falar de Sócrates, atira o debate para o campo da demagogia, das claques partidárias e da especulação. Passos Coelho cometeu mais dois erros. Por um lado esqueceu-se de que, apesar do laissez-faire, laissez passer que de facto definiu os seus anos de poder - com consequências boas e más -, também ele a certa altura sentiu a necessidade de dizer a Angola que os investimentos eram bem-vindos, apesar da relutância do Banco de Portugal. Na altura, esses contactos políticos fizeram sentido e ajudaram Portugal, permitindo que a Sonangol evitasse o deslaçar do BCP num período de extrema dificuldade para os empresários portugueses. Ou seja, Passos revela memória curta, o que o enfraquece politicamente. Acresce que, além de ter atacado António Costa, o líder da oposição também pôs em causa o Presidente da República, o que o deixa ainda mais isolado, talvez até dentro do próprio PSD, o que o obrigará a futuros esclarecimentos. Dito isto, a questão central: faz bem António Costa em envolver-se no redesenho do sistema financeiro, em vez de despejar as responsabilidades todas para o Banco de Portugal, como se tornara costume? A resposta, por enquanto, só pode ser afirmativa: fez bem. O governo não deve em caso algum ocupar o lugar dos acionistas privados. Não deve, como aconteceu no passado, demitir ou nomear administrações por controlo remoto, usando para isso os habituais gestores do regime. Mas uma coisa é interferir, outra é deixar claro que o governo pretende uma solução inclusiva, isto é, que envolva capital espanhol, angolano e português - ou de outro país, sem exclusividade. Não se trata de inventar soluções mirabolantes com testas de ferro que depois cobram a triplicar ao Estado, mas apenas de sublinhar que os tempos convidam a alguma prudência nas escolhas. Não se trata de nacionalismo económico, embora ele exista; só uma visão romântica ou desgarrada da realidade pode negar que se trata de uma corrente em alta no mundo inteiro por causa da incerteza geral. Trata-se, sim, de olhar para os problemas como moderação e inteligência. António Costa não assobiou para o lado, é isso que se espera de um líder do governo, apesar dos riscos que isso comporta.

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