Government Sachs

Nenhum outro banco investiu tanto nos últimos anos em sistemas informáticos quantitativos capazes de revelar tendências, expor fraquezas, indicar ao segundo as oportunidades nos mercados globais, estejam eles em alta ou em baixa, haja ou não recessão. Nenhum outro banco acrescentou a esta sofisticada capacidade tecnológica uma camada de inteligência humana que potencia este investimento. O Goldman Sachs tem ligações profundas à política. Trabalha nestes contactos sem rebuço. Faz lóbi com a determinação de um predador. Contrata os melhores em cada área. É uma máquina de ganhar dinheiro.

A lista de ex-quadros de topo deste banco de investimento que tem ou teve relações com a política é uma espécie de páginas amarelas de luxo. Government Sachs, não Goldman Sachs. Mario Draghi, governador do Banco Central Europeu. Peter Carney, governador do Banco de Inglaterra e ex-governador do Banco do Canadá. Mario Monti, ex-comissário europeu e antigo primeiro-ministro italiano, Hank Paulson e Henry Fowler, ex-secretários de Estado do Tesouro americano. Romano Prodi, antigo presidente da Comissão Europeia e antigo primeiro-ministro italiano. Robert Zoellick, antigo presidente do Banco Mundial. Otmar Issing, ex-membro do board do BCE. A certa altura da vida, antes ou depois, todos eles trabalharam no Goldman, foram sócios ou consultores muito bem pagos. A remuneração média de cada trabalhador em 2014, entre salários e prémios de desempenho, atingiu os dois milhões de euros. No topo da cadeia alimentar o valor ultrapassa os sete milhões.

Agora chegou a vez de Durão Barroso juntar-se a esta elite de banqueiros. Deixou a arena política com um capital de conhecimento e uma ampla lista de contactos acumulados ao longo de dez anos como presidente da Comissão Europeia. Não vai para a ONU, ele nunca foi um idealista, é um pragmático, é isso que o define - segue portanto diretamente para o Goldman. No momento em que se negoceia o brexit há muito dinheiro a ganhar. E há ainda a nova regulação bancária, o novo tratado de comércio com os EUA (TTPI), a própria fragmentação da UE e a incerteza sobre o euro. O mal de uns será a lotaria de outros.

Durão Barroso mostrou sempre um invulgar talento para valorizar ao máximo as suas capacidades e em detetar oportunidades. É nisso que ele é excelente. A foto da cimeira das Lajes, que nesta semana voltou a ser republicada no mundo inteiro e que lhe abriu as portas do olimpo político, exclui-o do quarteto - ser português ajudou-o a ficar na sombra daquela reunião temerária. Durão poderia não querer ligar-se a um banco com a reputação ferida - multas e investigações nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, os padrões de comportamento do maior banco de investimento do mundo são um mau cartão-de-visita ou talvez não. Carl Levin, senador democrata, numa audição por causa da crise do subprime, afirmou: "[O Goldman] é um ninho financeiro de cobras repleto de ganância, conflitos de interesses e delitos." Durão nunca foi um servidor do interesse público. Viremos então a página. Portugal não perdeu um grande político. Barroso também nunca o quis ser. A ideia dele era outra.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?