A nova troika

António Costa acaba de formalizar a maior aventura política dos últimos anos.

Ainda pode recuar, mas é improvável. Portugal não tinha um governo tão difícil de gerir desde a década de 80. Não só por causa das limitações económicas e financeiras, mas por causa da manta de retalhos que apoiará este executivo com apoio parlamentar à esquerda. Depois de três anos de troika, temos então pela frente uma nova troika, embora em sinal contrário, um trio que forçará o próximo primeiro-ministro a trabalhos forçados para coordenar tantas vozes antagónicas. Fazer isto que Costa está a fazer - juntar PS, Bloco e PCP - só é possível através de um trabalho minucioso tipo renda de bilros, mas governar assim não se resume a assinar um novo memorando de entendimento ou aprovar o Orçamento do Estado. Fixar no Excel as principais rubricas (salários, pensões, impostos) já é a quadratura do círculo, mas gerir os seus efeitos é infinitamente mais exigente. Implica manter uma posição coerente em relação aos casos que se vão suceder dia após dia e que podem incendiar esta troika lusitana - a troika boa, dirão os simpatizantes. Já aqui se escreveu: Costa não deu tempo a Passos & Portas para que negociassem, e esse é o pecado original deste acordo. Mas uma coisa é fazer isto, outra, diferente, será gerir isto tudo. O líder do PS até pode ter capacidades políticas formidáveis, mas se há coisa que ficou clara na campanha eleitoral é a inconsistência de alguns que o rodeiam. Não haveria drama se Portugal navegasse em águas tépidas. Acontece que a situação é complexa, a dívida pública mantém-se explosiva, o setor financeiro permanece na sala de recobro e a zona euro é o que é - não são de excluir choques internos e externos capazes de esticar ao limite os compromissos assinados. Por tudo isto, este será um governo que nascerá sem estado de graça. Um governo recheado de dúvidas e de dívidas. Um governo com tudo a provar. António Costa está a assumir grandes riscos. O tempo dirá se foi irresponsável.

P.S. Do ponto de vista externo, um governo PS com apoio parlamentar à esquerda é diferente, para melhor, do que um governo PS-Bloco-PCP.

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