Falar a sério

Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente da República há três meses. E, como é habitual entre nós maldizentes, passamos a vida à procura dos erros e das falhas, dos pecados e das asneiras, de tudo o que nos permita dizer "eu bem avisei que este tipo não é flor que se cheire" ou "eu sempre disse que o Marcelo não tem perfil para o cargo". Enfim, o costume. O último pretexto foram as celebrações do 10 de Junho no Terreiro do Paço, palco dileto do Estado Novo, e um suposto "excesso de militarização" das comemorações a fazer lembrar glorificações dos tempos da Guerra Colonial. Vamos lá falar a sério. É evidente que os símbolos são importantes, mesmo decisivos, e que um Presidente não pode ignorar os factos e a história. Mas, que diabo, será mesmo isto o mais importante de tudo aquilo que este Presidente tem feito em apenas 90 dias? É verdade que a tríade Thomaz, Salazar e Caetano se apoderou da praça para ali enaltecer a ditadura e os feitos militares no ultramar. Mas também foi ali, não só mas também, que se fez a liberdade. Ou já nos esquecemos todos das chaimites na Rua do Arsenal e no próprio Terreiro do Paço no dia 25 de Abril de 1974? A memória, sob pena de sermos acusados de desonestidade, não pode ser seletiva por mais que valorizemos o simbólico. O que importa reter destes três meses de "primavera marcelista" é, salvo melhor opinião, muito mais do que pequenos deslizes. Marcelo Rebelo de Sousa fala demais? Talvez. Não para quieto? Não é novidade. Faz política em cada um dos seus atos? Foi sempre assim. Marcelo tem sido igual a Marcelo. E talvez seja isso que apoquenta as almas mais conservadoras. Dessacraliza a presidência, quebra protocolos, aproxima o povo dos eleitos após décadas de afastamento. E, sobretudo, eleva-nos a autoestima e faz-nos crer que, como povo e apesar de todas as dificuldades, somos mesmo melhores do que os outros. Ou será que, em vez de um "otimista moderado" preferíamos ter um Presidente que chorasse ou que, em tom paternalista e mestre-escola, nos deprimisse de cada vez que falasse à nação? Sem deixar de fazer o que tem de ser feito - Marcelo veta e promulga, arbitra e faz avisos, tempera o "otimismo irritante" do primeiro-ministro e não tem medo de apontar as elites falhadas -, a verdade é que este Presidente da República convoca-nos a todos a sermos os melhores, no fundo, a sermos portugueses. Foi isso que ele fez neste 10 de Junho, Dia de Portugal, ao condecorar gente anónima e de valor, em vez de seguir o guião do habitual cortejo de comendas, tantas vezes sem sentido ou explicação, de outros tempos. Não sei se será sempre assim. O mais provável é que não seja. Mas, enquanto durar, não tenho nenhuma dúvida de que vai ser bom.

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