Errar e renovar 

O reconhecimento de um erro de interpretação é a regra base do bom jornalismo. É um sinal de exigência editorial e respeito pelos leitores e pelos sujeitos das notícias. A entrevista a Pedro Passos Coelho (PPC), reproduzida há duas semanas no DN, continha uma deformação das palavras do presidente do PSD. Esse erro demorou a ser identificado por motivos simples: no fim da entrevista, fiquei convencido que PPC dissera mesmo "roubou" e não "derrubou" - a semelhança fonética é evidente. A profissional que desgrava as entrevistas para o DN, sem ter falado comigo sobre o assunto, ficou com a mesma impressão. Portanto, já éramos dois com essa convicção. Além disso, o assessor de imprensa que acompanhou Pedro Passos Coelho aos estúdios da TSF também ficou convencido de que ele dissera "roubou", tendo-lhe dito isso mesmo no sábado, o dia da publicação - a informação foi-me dada pelo próprio líder do PSD e confirmada pelo assessor. Passos Coelho estranhara desde logo a formulação da frase e perguntara ao seu assessor se a tinha de facto proferido - a resposta foi afirmativa. Sim, dissera-a. Acontece que, apesar de a dita frase não ter sido manchete - porque nos parecia menos valiosa informativamente do que outras, apesar de mais agressiva e chamativa -, ela acabou por desencadear alguns artigos de opinião, embora não no DN. Foi por isso que Passos Coelho me telefonou na quarta-feira de manhã. Não pediu a correção, pediu apenas que eu ouvisse o áudio outra vez. Foi o que fiz, verificando que PPC estava certo e o DN errado, apesar de o som não ser perfeito e da confusão provocada por várias interrupções dificultar a audição e interpretação das palavras. Perante isto, escrevi uma correção, trocando ainda nesse dia alguns telefonemas com o presidente do PSD. A correção saiu no fim do editorial da edição em papel de hoje, assinado por mim - uma prática pouco habitual que pode ser usada apenas em casos extremos, mas que me pareceu adequada face ao problema causado por mim. Assim, pensei eu, não restariam dúvidas sobre a boa-fé do DN e sobre o nosso padrão de exigência jornalística. Os erros têm impacto sobre quem os sofre na pele. A reputação das pessoas, todas elas, deve ser protegida. Não podemos facilitar. Na luta política, perante a agressividade reinante e a tentação de escrevinhar tudo no Facebook, este princípio já não é tão respeitado quanto deveria ser. O abuso e a ofensa são o novo normal. Ainda assim, julgo que é meu dever não contribuir para o ruído e a desinformação. Pelo contrário, tenho a obrigação profissional, como diretor do DN e jornalista, de impor critérios transparentes e exigentes, mesmo quando eles aparentemente me penalizam. Julgo que não há outra maneira de conduzir um jornal com seriedade. Devemos ser intransigentes com o erro, mesmo que involuntário, como foi manifestamente o caso. O nosso trabalho, o trabalho dos jornalistas, não é a última palavra, nunca tive essa aspiração ou delírio. Deve ser, sim, um contributo sério para fortalecer e alimentar saudavelmente o debate público. Não há aqui um pingo de ingenuidade. Só vale a pena fazer jornalismo assim, contando o mundo como o vemos, sabendo avançar com determinação e parar quando as circunstâncias impõem essa prudência. Um erro editorial pode, se corrigido em tempo útil, ser também ele um contributo valioso para o debate democrático, profícuo e inteligente. Desejavelmente traduz a renovação dos laços de confiança com a comunidade para quem temos o privilégio de trabalhar todos os dias.

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