Em guerra

Foram precisos quatro meses para capturar o homem que confessou ter planeado os atentados de novembro em Paris. Apenas quatro dias depois de ser apanhado, novas explosões, agora em Bruxelas, deixavam a Europa em choque. "Estamos em guerra", repetiu François Hollande. Já o tinha dito depois do ataque ao Charlie Hebdo, em janeiro do ano passado, e de novo em novembro, quando a capital francesa voltou a ser atacada. De todas as vezes, a Europa acenou que sim, baixou a cabeça, consternou-se, reuniu-se de emergência. E pouco fez acontecer. Outros atentados foram frustrados, sim, ainda ontem foi evitada nova desgraça em França. Mas ainda não se conseguiu chegar a um plano de cooperação de polícias e inteligência que permita combater a ameaça. Os erros apontados à Bélgica - a incapacidade de fazer trabalhar em conjunto as suas forças de segurança, de não controlar o que se passa nos seus bairros - são falhas também de uma Europa que ainda não percebeu como tornar eficazes as políticas comuns ao nível da segurança. E enquanto não conseguir fazê-lo, vai estar vulnerável a novos ataques - que são planeados, construídos e levados a cabo cá dentro, por cidadãos europeus, o que torna a tarefa mil vezes mais difícil e a prevenção mil vezes mais urgente. Precisamos tanto de soldados como de trabalho social para combater o terrorismo, escreve nesta edição o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi. É verdade. Precisamos, de uma vez por todas, de desbloquear o que ainda impede a partilha de informação e a conjugação das forças de segurança dos países da União Europeia. Mas também é essencial que não esqueçamos o horror que se vive do lado de lá das fronteiras europeias, que não deixemos de ver as diferenças entre aqueles que para aqui vieram viver à procura de paz e de futuro e os que nos querem radicalizar e destruir. Foi essa a mensagem que o Papa quis passar ao lavar os pés a refugiados muçulmanos e hindus, homens e mulheres, na tradicional cerimónia da Semana Santa. Estamos em guerra. Há um lugar para o trabalho social e há um lugar para os soldados. E é essencial que as diferentes posições sejam finalmente ocupadas com eficácia.

PS. Numa altura em que a reconfiguração da banca portuguesa está sobre a mesa, Marcelo convidou Mario Draghi para o Conselho de Estado de dia 7, para discutir a situação financeira e económica portuguesa e europeia. É de génio.

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EUA

Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.