Cavaco e Costa

Cuidado: Cavaco Silva vai exercer os poderes que lhe restam até ao final do mandato para fiscalizar o governo de António Costa. Mas não é suposto ser isso que um Presidente da República faz do primeiro ao último dia em que permanece no Palácio de Belém, isto é, verificar, testar, assegurar que a Constituição é cumprida e o país não sucumbe a um súbito devaneio político? É conveniente lembrar que este Presidente atravessou períodos de extrema benevolência com Passos & Portas e mais ainda durante os anos exuberantes de José Sócrates. O país entrou em bancarrota em 2011 e o Presidente da altura não era Costa Gomes, não era Ramalho Eanes, não era Jorge Sampaio, era ele mesmo, Cavaco Silva. Foi ele quem assinou muitos dos diplomas que vieram do executivo ou do Parlamento e que ajudaram a conduzir o país ao precipício. Pode ter-se queixado e avisado, embora nem sempre, mas não mandou abaixo o governo, como Sampaio fez a Santana Lopes quando concluiu que os riscos eram demasiado graves. É por isso que seria incompreensível que Cavaco usasse agora esses poderes máximos sem razões evidentes para isso, apenas porque se recusa a engolir PCP e Bloco. O Presidente pode pedir a fiscalização da constitucionalidade dos diplomas - como fez com Passos e Sócrates. Pode vetar politicamente as leis que lhe chegarem do governo. Já aconteceu e se acontecer outra vez é apenas sinal de que os pesos e contrapesos funcionam. Mas é evidente que Cavaco quer exibir (não apenas mostrar) até à exaustão que não confia nesta solução, daí o teatro de ontem - converteu o normal (fiscalizar) em excecional, dramatizando em excesso a ocasião. No entanto, o Presidente não deve transformar-se numa força do bloqueio. Compete-lhe ser exigente, sem demonstrações pueris de força. Deve seguir o bom exemplo dado ontem por António Costa na tomada de posse. O novo primeiro-ministro não gosta de Cavaco nem um bocadinho, mas foi superior a esse instinto de combate porque sabe - como ontem notou Marcelo Rebelo de Sousa - que o país quer andar para a frente. Quer mesmo. Não há alternativa.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG