A amante do Presidente

Há um ano, Marcelo começava a dessacralizar o cargo que ocupa descendo a pé a Calçada da Estrela para ir até ao Parlamento ser empossado como Presidente da República. Com esse gesto disse ao povo que o elegeu, e a todos os outros, que não deixava de ser quem é. De lá até cá foi sempre a melhorar, ou a piorar como pensam muitos dos que o elegeram.

Marcelo foi eleito pela direita mas teve o cuidado de não ser eleito contra a esquerda. Quis ir para o altar sem noiva mas depressa procurou companhia e não pode ter surpreendido ninguém que, à saída das urnas, tenha deixado o seu eleitorado desconsolado para saltar para os braços da amante. A geringonça é mais sexy, mas não é por isso que o Presidente a namora, a tal ponto que muita gente à direita considera excessivo. Marcelo namora a geringonça porque é a única solução governativa que existe.

Descontando o fanatismo das claques, é evidente que Marcelo está a fazer o que se espera de um Presidente da República. Marcelo aposta na estabilidade política porque adivinha problemas complicados de resolver. O que aí vem da América de Trump, do brexit, das eleições holandesas, francesas e alemãs precisa de um governo credível e coeso. O periclitante sistema financeiro precisa de um governo credível e coeso.

O estilo presidencial de Marcelo é tão marcante que muitas vezes nos distrai da substância política. O que o Presidente conseguiu até agora foi reconciliar muitos portugueses com a política. Na Assembleia da República e nas redes sociais funcionam as claques partidárias, mas essa crispação não existe na sociedade.

Marcelo é excessivo em muito do que faz. Comenta demasiado, mete-se onde não deve e até dá a sensação de que é mais benevolente com a esquerda do que com a direita, mas um ano depois de ser empossado Presidente a geringonça é respeitada lá fora. Se tivesse assumido as dores da direita, como muitos pretenderam quando acusaram Costa de ter usurpado o poder, ficava todo o país a perder. Não tem que ver com opção ideológica, tem que ver com pragmatismo.

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